O amor daqueles dois – A história

Eles acreditaram.

Foram fiéis ao que sentiram.

Abdicaram de si mesmo para dar a luz, cuidar e deixar crescer o Amor que juntos geraram.  E quando o amor já equilibrado e seguro, acomodou-se em seu lugar; a compreensão das coisas chegou-lhes.

Sentiram que o momento do fruto dos cuidados que tiveram “juntos” com aquele amor estava amadurecido e que da fruta madura, aproveita-se até o que não se vê. O aroma, invadiu-lhes a vida.

Degustavam o doce do fruto puro que plantou-se em seus dias, brotou em suas terras, cresceu em seus quintais.

Assistiu com eles a tudo, passou com eles seus vendavais. Agora seu doce excelente, seu sabor era nobre.

Então meus caros, não era raro vê-los encostados um ao outro com seus cabelos brancos quase que entrelaçados nos bancos das praças sentados. Nos trens, restaurantes, à noite caminhando debaixo da lua, pelas ruas vazias ou no piers de dia olhando o som do mar, como um duo apaixonado.

Viviam aos risos feito dois adolescentes, fazendo surpresas um ao outro. Presenteando-se com conchas, pedras e flores arrancadas de algum jardim.

Não deixavam morrer, não deixavam ter fim!

Fundiram-se!

O amor daqueles dois…

Seus olhos os denunciavam.

Às vezes quando entre amigos e seus olhares se encontravam; o dela brilhava, o dele sorria, e por um segundo parecia que iam e voltavam de algum lugar, de um segredo de algum mundo que só os dois conheciam e entravam.

Todos viam…

Ninguém duvidava.

Era uma clara e escancarada declaração de amor sem prévia alguma ou qualquer gesto ou qualquer outro sinal.

Era de fábrica! Aquela série única do Amor vinha com o item: “Automático-do-casual.

Alguns tentaram invadir aquele mundo particular.

Foi…

Hora querendo tirar ela dele; hora separar ele dela.

Foi inútil…

Não era questão de ser melhor que ele (o que era fácil de ser); ou mais bonita, generosa, compreensível que ela (o que era difícil de ser).

O segredo estava no que eles tinham sem parecer ter, no que eram se parecer ser, no que se via neles sem se ver.

Sem qualquer razão e aparentemente fora de contexto, ao se despedir, ele dizia como que ao vento:

“Um mundo em sua casa, cada casa sua porta, cada porta sua chave. Não dê a sua a outra; nem aceite a de ninguém.

Cada coisa em seu lugar, pois cada um é o que o seu mundo tem”.

Eles lutaram tanto por esse amor que agora o próprio Amor parecia que queria pagar-lhes pelos cuidados.

Então os mimava…

Silencioso, discreto mas sempre presente. Tomava conta deles como um filho dos pais. Sim como um filho… um filho que eles não tiveram.

O mais precioso entre eles não estava nos momentos felizes ou naquela virada financeira no tempo mais difícil da vida deles. Não…

O doce não vinha do reconhecimento e respeito que os amigos ou a sociedade unanimemente lhes prestava.

No carro novo, na bela casa dos sonhos. No anel de ouro ou diamante, não morava no momento do ”pedido”.

Não estava lá no “antes”, ou no “sonho daqui distante”

Nunca esteve no banco. Na bela pele da juventude ou experiente ruga da velhice.

Não estava no “cabelo ao vento” ou nas tranças brancas do tempo.

Não era de ouro, pedra, pau, barro, cobre ou vidro.

Nem estava no que ela ou ele, um no outro viram.

O segredo vivia no que a todo momento construíram juntos como se dissessem: “Vejam!”

Mas aos nossos olhos parecia que escondido.

Mas todo tempo esteve lá…

Abstrato, incontível e tão bem guardado

Corajosamente manso,

Valentemente flor,

Um silencioso grito,

Foi invisivelmente visto,

O amor daqueles dois.

 

Migri

migri.jornalista@outlook.com

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