Maiara Domingues

Encontrou no espiritismo uma nova filosofia de vida, de amor, paz, serenidade e entrega ao próximo. Ela escreve reflexões para o dia a dia.

O trabalho de cada um

No Ramayana, uma das grandes epopeias indianas, conta-se a história do príncipe Rama, um jovem cheio de virtudes.

A esposa de Rama, Sita, fora sequestrada pelo perverso Ravana.

Ajudado por ursos e macacos, o valente Sama tentava construir uma ponte até à ilha de Lanka, onde viviam Ravana e a prisioneira Sita.

Os ursos carregavam pesadas árvores e os macacos traziam pedras.

Mas, não havia trabalho para um grupo de esquilos. Pequeninos, sem muita habilidade, eles apenas conseguiam pôr alguns grãos de areia na ponte que se formava.

Os esquilos faziam assim: molhavam-se na água e depois rolavam na areia.

Os grãos de areia grudavam no pelo e eles corriam até à ponte. Ali, sacudiam a areia sobre a construção.

Narra a história que os outros bichos riam dos esquilos e desprezavam suas tentativas de colaborar.

E os esquilos se sentiam humilhados porque seus esforços não eram valorizados.

Alguém resolveu contar a Rama o gesto dos esquilos. Esperava que Rama também risse dos bichinhos ingênuos.

Venha vê-los, Rama, venha se divertir também com esses esquilos tolos!

Mas Rama observou os animaizinhos, que rolavam na areia, enquanto todos à sua volta haviam parado o trabalho para rir.

Gentilmente, ergueu um deles do solo. Acariciou-lhe a pelagem e disse, com amor:

Um dia, todos ouvirão falar sobre a ponte para Lanka. Louvarão o esforço dos ursos e dos macacos, mas eu sou grato a todos os que trabalham. E você, pequenino, tem minha eterna gratidão.

E, diante de todos que olhavam a cena, o príncipe Rama deu um presente ao esquilo: acariciou-lhe as costas e seus dedos deixaram três listras brancas nas costas do animalzinho.

Esta, pequenino, é a marca de minha gratidão, disse Rama.

Todo o Ramayana é composto de histórias semelhantes, que trazem um profundo ensino moral.

Esta nos faz refletir sobre gratidão, generosidade e, principalmente, a importância do trabalho.

Por mais humilde e obscuro que seja, cada um de nós tem um papel muito importante no mundo.

Aparentemente, outros são mais importantes, contribuem mais, têm tarefas maiores. Aparentemente.

Mas lembre, por um momento, a falta que fazem porteiros, vigias, garis, faxineiras, empregados domésticos.

Todos são muito importantes. São homens e mulheres que se esforçam para ganhar o pão de cada dia, tantas vezes regado com lágrimas que ninguém vê.

Para Deus, todo esforço é válido, todo trabalho é digno, todo trabalhador merece recompensa. A medida do mundo não é a medida divina.

É que Deus, que conhece a nossa alma, sabe avaliar com exatidão o nosso esforço, capacidade e talentos.

Ele sabe que o que é simples e fácil para um, pode exigir muito de outro.

E Deus, que também vê no silêncio e na solidão, acolhe e ama cada trabalhador pequenino neste mundo tão vasto.

Que cada um de nós possa ver os trabalhadores do mundo sob a lente do imenso amor divino.

 

Redação do Momento Espírita

O feixe de lenha

Conta-se que um próspero fazendeiro, dono de muitas propriedades, estava gravemente enfermo.

Mas, muito mais que sua doença, o que mais o incomodava era o clima de desarmonia que reinava entre seus quatro filhos.

Pensando em dar uma lição importante, ele chamou os quatro para fazer uma revelação importante:

Como vocês sabem, eu estou velho, cansado e creio que não me resta muito tempo de vida. Por isso, chamei-os aqui para avisá-los que vou deixar todos os meus bens para apenas um de vocês.

Os filhos, surpresos, se entreolharam e ouviram o restante que o pai tinha a lhes dizer:

Vocês estão vendo aquele feixe de gravetos ali, encostado naquela porta? Pois bem, aquele que conseguir partir ao meio, apenas com as mãos, este será o meu herdeiro.

De início acharam um tanto absurda a proposta, mas pensando no prêmio, logo começaram a tentar quebrar o feixe.

Tentaram, tentaram, e por mais esforços que fizessem, nenhum foi bem sucedido no tentame.

Indignados com o pai, que lhes propusera algo impossível, puseram-se a reclamar.

Este então se colocou em pé, e disse que ele mesmo iria quebrá-lo. Os filhos, incrédulos, permitiram obviamente.

O velho homem começou a retirar, um a um, os gravetos do feixe, e foi quebrando-os separadamente, até não mais restar um único graveto inteiro.

Voltou o olhar aos filhos e concluiu:

Eu não tenho o menor interesse em deixar os meus bens para só um de vocês. Eu quero, na verdade, que vocês, juntos, sejam os sucessores do meu trabalho. Sucessores que trabalhem com garra, dedicação e, acima de tudo, repletos de amor, uns pelos outros.

E disse ainda:

Enquanto vocês estiverem unidos, nada poderá pôr em risco tudo que construí para vocês. Nada, nem ninguém, os quebrará. Mas, separadamente, vocês serão tão frágeis quanto cada um destes gravetos.

 

Dois pedaços de madeira podem sustentar mais peso do que a soma que cada um pode aguentar separadamente.

Da mesma forma, ajudando-nos uns aos outros, mantendo-nos unidos por bons sentimentos, suportaremos muito melhor os impactos que a vida nos apresentará.

A tão presente expressão: Cada um por si, e Deus por todos, precisa desaparecer de nossos valores, de nossa filosofia de vida.

O mundo individualista não tem futuro. O egoísmo cederá lugar à caridade, ao importar-se um com o outro, à vida em grupo.

As famílias estarão muito mais fortes, preparadas para enfrentar desafios, quando unidas.

As organizações terão mais êxito e sucesso, quando cultivarem o espírito de equipe em seu ambiente diário.

As comunidades farão mais conquistas, crescerão mais rápido, quando perceberem que as pessoas juntas têm mais voz, têm mais poder de atuação.

As nações, por sua vez, entenderão que estamos todos juntos, neste globo, por uma causa muito especial: juntos evoluímos, juntos alcançamos os novos patamares celestes de felicidade.

*   *   *

Um pensamento antigo diz que a união do rebanho obriga o leão a ir dormir com fome…

Tão frágil parece o rebanho, se observarmos as características individuais de cada um de seus membros. Mas tão forte se faz, quando unido, a ponto de escapar dos maiores predadores.

A força unida é mais forte.

 

Redação do Momento Espírita, com base em conto apresentado no livro S.O.S. Dinâmica de Grupo, de Albigenor e Rose Militão, ed. Qualitymark

Tempo de afiar o machado

Conta-se que um jovem lenhador ficara impressionado com a eficácia e rapidez com que um velho e experiente lenhador, da região onde morava, cortava e empilhava as madeiras das árvores.

O jovem o admirava, e o seu desejo permanente era de, um dia, tornar-se tão bom, senão melhor, do que aquele homem, no ofício de cortar madeira.

Certo dia, o rapaz resolveu procurar o velho lenhador, no propósito de aprender com quem mais sabia.

Enfim ele poderia tornar-se o melhor lenhador que aquela cidade já tinha ouvido falar.

Passados apenas alguns dias daquele aprendizado, o jovem resolvera que sabia tudo, e que aquele senhor não era tão bom assim quanto falavam.

Impetuoso, afrontou o velho lenhador, desafiando-o para uma disputa: em um dia de trabalho, quem cortaria mais árvores.

O experiente lenhador aceitou, sabendo que seria uma oportunidade de dar uma lição ao jovem arrogante.

Lá se foram os dois decidirem quem seria o melhor.

De um lado, o jovem, forte, robusto e incansável, mantinha-se firme, cortando as suas árvores sem parar.

Do outro, o velho lenhador, desenvolvendo o seu trabalho, silencioso, tranquilo, também firme e sem demonstrar nenhum cansaço.

Num dado momento, o jovem olhou para trás a fim de ver como estava o velho lenhador, e qual não foi a sua surpresa, ao vê-lo sentado.

O jovem sorriu e pensou: Além de velho e cansado, está ficando tolo. Por acaso não sabe ele que estamos numa disputa?

Assim, ele prosseguiu cortando lenha sem parar, sem descansar um minuto.

Ao final do tempo estabelecido, encontraram-se os dois, e os representantes da comissão julgadora foram efetuar a contagem e medição.

Para a admiração de todos, foi constatado que o velho havia cortado quase duas vezes mais árvores que o jovem desafiante.

Este, espantado e irritado, ao mesmo tempo, indagou-lhe qual o segredo para cortar tantas árvores, se, uma ou duas vezes que parara para olhar, o vira sentado.

Ele, ao contrário, não havia parado ou descansado nenhuma vez.

O velho, sabiamente, lhe respondeu:

Todas as vezes que você me via assentado, eu não estava simplesmente parado, descansando. Eu estava amolando o meu machado!

 

Reflitamos sobre o ensino trazido pelo conto.

Obviamente, com um machado mais afiado, o poder de corte do velho lenhador era muito superior ao do jovem.

Este, embora mais vigoroso na força, certamente não percebeu que, com o tempo, seu machado perdia o fio, e com isso perdia a eficácia.

Quando chegamos em determinadas épocas de nossas vidas, como o fim de mais um ano de trabalho, de esforço, de empreendimento, esta lição pode ser muito bem aplicada.

É tempo de amolar o machado!

Embora pensemos que não possamos parar, que tempo é dinheiro, que vamos ficar para trás, perceberemos, na prática, que, se não pararmos para amolar o machado, de tempos em tempos, não conseguiremos êxito.

Amolar o machado não é apenas descansar o corpo, é também refletir, avaliar, limpar a mente e reorganizar o nosso íntimo.

Amolar o machado é raciocinar, usar a inteligência para descobrir se estamos utilizando nossas forças da melhor forma possível.

Assim, guardemos algum tempo para essas práticas realmente necessárias, e veremos, mais tarde, que nosso machado poderá cortar as árvores com maior eficiência.

 

Redação do Momento Espírita, com base em conto da obra S.O.S. Dinâmica de Grupo, de Albigenor e Rose Militão

Quando o perdão é o remédio

Quando aquele homem adentrou o avião, a comissária de bordo não pôde deixar de observar-lhe o cenho carregado.

Gentil, acostumada ao trato com muitas pessoas, atreveu-se a lhe dizer:

Senhor, noto que não está bem. Permito-me lhe sugerir que leia uma obra muito importante. Ela mudou a minha vida, oportunizando-me ser mais feliz.

E declinou o nome do livro.

O homem se sentiu um tanto constrangido. Ele era o autor da obra citada.

Foi ao assento que lhe estava marcado, sentou-se e pôs-se a pensar.

Por que estava sempre tão tenso? Como podia escrever para os outros e viver tão mal? Tinha raiva de tudo e de todos, do mundo.

E, então, deu-se conta que odiava seu pai. Tinha um problema com ele, uma mágoa profunda, guardada há anos.

Era infeliz por causa disso. Era famoso, respeitado, homenageado, mas infeliz.

Resolveu ir ter com seu pai para uma conversa. Desejava que ele soubesse como estragara a sua vida.

Viajou por dois mil quilômetros. Quando chegou à cidade, seu pai não o aguardava. Ficou mais magoado ainda.

Foi à casa do pai e o encontrou, sentado no sofá, em frente à televisão.

Sem cerimônias, ele despejou tudo que trazia dentro de si, acumulado por anos.

Falou de como seu pai estragara a sua vida. Que seu pai nunca o abraçara, beijara ou tivera um gesto de carinho para com ele.

Que seu pai jamais lhe telefonara ou escrevera, cumprimentando pelos prêmios ou homenagens que ele recebera.

Quando concluiu a sua fala nervosa, agressiva, o pai lhe apontou uma mala, a um canto da sala e ordenou que a abrisse.

Dentro havia muitos recortes de jornais. Todos se referindo aos sucessos do filho.

E, então, com a voz de dor de muitos anos, o velho pai igualmente desabafou:

Você me culpa por sua infelicidade. No entanto, se esquece de que fui eu quem lhe pagou todos os estudos.

Para que você conseguisse seu diploma de médico, eu trabalhei a terra, até minhas mãos sangrarem.

Quando sua mãe morreu, renunciei a um novo consórcio. Temi que, numa relação nova, viesse a ter outro filho e esse pudesse lhe trazer algum embaraço.

Você nunca me agradeceu, por nada. E nunca me telefonou. Nunca me escreveu.

Eu esperei tanto…

Nunca o abracei, é verdade. Eu não tinha jeito, nem vontade, depois das horas de cansaço e solidão…

Era um desabafo. Era tanta dor…

O filho se ajoelhou e pediu perdão, diluindo a mágoa injusta de muitos anos num abraço…

 

A infelicidade que nos cerca, muitas vezes, é somente fruto de nossa forma egoísta de ver o mundo.

Pensemos nisso e façamos o gesto primeiro do perdão, na direção de quem nos ama e nos aguarda a atitude de carinho, de gratidão.

 

Redação do Momento Espírita

Adeus, homem velho, feliz homem novo

Maria da Costa Lourdes Gonzaga foi professora por trinta anos na Comunidade Mont Serrat, região central de Florianópolis, em Santa Catarina. Segundo suas contas, deve ter dado aula para mais de quinze mil alunos.

Dona Uda, como ficou conhecida, também batalhou por água encanada, esgoto, asfalto e ônibus para a Comunidade de Mont Serrat, na qual ela vive até os dias de hoje.

Aos 78 anos, dona Uda ainda não parou. Coordena o Grupo de Mulheres Antonieta de Barros, é madrinha da Melhor idade e participa das atividades da igrejinha de Mont Serrat.

Ainda, trabalha intensamente para ver nascer a primeira universidade do morro: participa de audiências públicas e reuniões diversas com representantes do governo, a fim de viabilizar esse projeto.

Dona Uda nasceu no morro Mont Serrat, no dia 30 de julho de 1938. Apesar da vida difícil, seus pais muito se esforçaram para realizar o sonho da filha: se tornar professora.

Aos treze anos, a menina foi estudar no Instituto Estadual de Educação, a maior escola pública de Santa Catarina, na qual foi a primeira aluna negra. Da mesma forma, foi a primeira aluna negra a passar no vestibular da Universidade de Santa Catarina.

Diplomada, foi convidada a lecionar na primeira escola criada em uma favela, situada na comunidade na qual vivia. Quando as aulas começaram, a professora tinha apenas doze alunos. No final do ano letivo, contavam mais de quinhentos.

A Legião da Boa Vontade cedeu duas salas. A igreja local, uma. Ainda, um morador ofertou uma casa antiga com três cômodos e, dessa forma, todas as quinhentas crianças puderam ter aula. Na hora do lanche, a mãe de dona Uda preparava lanche para todos.

Era muito bonito de ver. Nós vencíamos qualquer obstáculo. O importante era que nenhuma criança ficasse ociosa, relata a professora. Ela afirma que seu principal ensinamento não foi o abecedário. Foi alimentar sonhos.

“Eu dizia a meus alunos que eles podiam ser o que quisessem. Se uma menina do morro quiser ser médica, ela vai ser. Não há o que segure sua força de vontade”, afirma dona Uda.

O estímulo rendeu frutos. Hoje a professora guarda uma caixa cheia de convites de formatura de seus ex-alunos: são médicos, advogados, enfermeiros. Muitos fizeram mestrado e doutorado com a bênção inspiradora da madrinha da comunidade.

“Em nome do bem, virei mãe de todos”, conta, feliz, a professora.

 

Ano Novo. Nesse momento especial, no qual nossas esperanças se renovam, separemos o joio do trigo, o que passa do que permanece.

Esforcemo-nos, a fim de levarmos para o ano que desponta somente aquilo que seguirá conosco nas sendas da eternidade: os sorrisos que despertamos, o amor que distribuímos, o perdão que ofertamos e, de forma especial, o bem que fazemos.

Os ressentimentos, o orgulho, a falta de caridade e fé, a vaidade… deixemos tudo para trás, junto do homem velho do qual, pouco a pouco, nos despedimos.

Façamos o bem. Dessa forma, não importa se 31 de dezembro, 19 de maio ou 14 de setembro. Ano Novo se fará no exato instante em que os raios iluminados de nossa boa vontade nos alcançarem.

Renovemo-nos no bem! Feliz Ano Novo!

Redação do Momento Espírita, com base em biografia de Maria da Costa Lourdes Gonzaga

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