Maiara Domingues

Encontrou no espiritismo uma nova filosofia de vida, de amor, paz, serenidade e entrega ao próximo. Ela escreve reflexões para o dia a dia.

O boné dourado

Leila saiu bem cedo para caminhar pelas ruas do bairro, como fazia todas as manhãs.

Levava apenas uma garrafa de água, pendurada numa bolsa a tiracolo. Não usava relógio, pulseira, colar, nada que atraísse a cobiça alheia.

Protegia-se do sol com um boné dourado, que a acompanhava há anos.

Naquela manhã, ao passar por uma alameda, viu um rapaz andando nervosamente em sua direção.

Pressentiu que algo aconteceria. Imediatamente, pareceu ouvir uma voz sussurrando: Você não está só. Confie.

A vida havia ensinado àquela senhora muitas coisas, entre elas, o valor da fé.

O rapaz a abordou, numa postura nada amigável. Mesmo assim, ela sorriu e disse bom dia.

Ele mostrou a arma e mandou que ela entregasse tudo de valor que tivesse.

Serena, Leila mostrou que só carregava a bolsa de crochê com a garrafa d´água.

O jovem se irritou. Ela teve uma inspiração. Tirou o boné da cabeça e disse:

Este boné é valioso. Tem o poder de fazer aflorar o bem e o amor dentro das pessoas. Leve-o e use-o sempre. Ele vai iluminar seus pensamentos.

O assaltante, achando que ela estivesse debochando dele, estava a ponto de perder a paciência. Nisso, o barulho do portão de uma casa, que se abriu ruidosamente, o assustou. Ele agarrou o boné e saiu correndo.

Leila voltou para casa e se recolheu em prece. Agradeceu a Deus pela proteção recebida e pediu-lhe que amparasse aquele jovem que trilhava um caminho tão tortuoso.

Passou a orar por ele, diariamente. Pedia para que seus pensamentos fossem aclarados e que ele tivesse força e ajuda para mudar de vida.

Depois do assalto frustrado daquela manhã, Sidney não conseguia parar de pensar na idosa do boné dourado. A princípio, achou que fosse piada, mas percebeu que tudo mudara depois que ele passara a usar o boné.

Começara a ter pensamentos diferentes. Teve vontade de alterar o rumo da própria vida.

Uma noite, passou em frente a uma casa de oração. Entrou e ouviu a explanação de um trecho do Evangelho. Chorou muito. Identificou-se com o que tinha escutado.

Saiu renovado e desejou compartilhar aquilo com alguém. Mas quem?

Lembrou-se da senhora do boné. Na manhã seguinte, voltou àquela alameda na esperança de reencontrá-la.

Viu-a caminhando e foi, trêmulo, em sua direção. Levava o boné na mão.

Leila o reconheceu. O rapaz contou-lhe o que acontecera, pediu perdão e confirmou que o boné era mágico.

A senhora sorriu e revelou que o boné não tinha poder algum, que o poder de transformação sempre estivera nele mesmo. Simplesmente fora ativado pela força da fé.

Disse que orava por ele todos os dias, enviando-lhe pensamentos positivos. Portanto, o que tivera efeito sobre seus pensamentos foram as orações e a sintonia com o bem.

Sidney ficou assombrado com aquela revelação. Alguém fizera preces em sua intenção, acreditara no bem que havia em seu íntimo e o ajudara a desejar se modificar.

Grande poder da bondade, da prece e da vontade de auxiliar a outrem.

 

Redação do Momento Espírita

O papel da mulher

Quando a jovem, junto a amigos que serviam à comunidade carente, chegou à favela pela primeira vez, ficou chocada.

Ela ouvira falar de miséria e fome. Isso ela podia entender. O desemprego, a falta de habilitação profissional, os limites pessoais daquela gente, no seu modo de ver, poderiam somente conduzi-las àquela situação.

Mas o que a deixou estarrecida foi a sujeira de alguns. O corpo acumulava o pó e o suor de muitos dias. As roupas estavam engomadas de tão sujas, não se podendo identificar com certeza as cores. O mau cheiro era insuportável.

Percebendo o desconforto de Adriana, um dos amigos se aproximou, tentando ajudá-la. Ela aproveitou o momento para desabafar:

Esta gente é muito relaxada! Desde cedo aprendi com minha mãe que a gente pode ser pobre, mas também ser limpo.

Armando a abraçou e lhe disse em voz baixa:

Adriana, estes que estão assim tão descuidados não tiveram mães desveladas como as nossas. Não tiveram quem os ensinasse a se manterem limpos.

Mães são seres especiais. Desempenham junto aos filhos a mais nobre das tarefas que possa ser designada aos seres humanos: ensinar o filho a viver.

São elas que, desde o berço, passam aos pequenos as primeiras e preciosas lições de vida.

São elas que lhes protegem o passo e os disciplinam no dever.

São elas que, desde a amamentação, lhes servem com o leite as noções de Deus, da oração e da moral de Jesus.

Com as primeiras palavras, também as primeiras orações ao Pai e Criador.

No suave aconchego do lar elas lançam as sementes nos corações iniciantes na Terra. Cedo ou tarde, as sementes germinarão.

Mesmo que, eventualmente, os filhos se percam pelas ruas tortuosas do mundo, dia haverá em que recordarão as lições recebidas e retornarão ao caminho da retidão.

Então, amiga, considere que estas criaturas não tiveram os cuidados que nos foram dispensados. Nem tampouco, as orientações que recebemos.

É possível que alguns deles nem tenham a verdadeira noção de lar, de uma família estruturada, de mãe atenciosa.

Pense nisso e comecemos nós, a cada dia, a pouco e pouco, irmos lhes ensinando noções de higiene, de organização, de cuidados.

 

Nada que se imprima nos corações infantis perde-se no tempo. A memória guarda e o coração armazena com um sentimento todo especial.

E, de uma forma singular, quando essas crianças se tornarem pais e mães brindarão seus próprios rebentos com as lições da sua infância e os valores colhidos da boca materna.

O que ensinamos aos nossos filhos são sua melhor proteção contra as tentações e o mal que se encontra no mundo.

Com valores bem definidos, eles terão condições de tomar suas próprias decisões em vez de imitar as modas mais recentes ou colegas nem sempre convenientes.

Ajudar nossos filhos a desenvolver valores morais deve fazer parte do nosso roteiro de educação. Isso é tão importante quanto ensiná-los a ler e a atravessar a rua com segurança.

 

Redação do Momento Espírita

Quando a idade avança

Passamos pela rua e observamos o casal de idosos parado em frente ao posto móvel policial.

Os dois policiais jovens sorriam e respondiam, cordialmente, às questões do senhor e da senhora, ambos de cabeças totalmente nevadas.

O casal não estava ali para reclamar de coisa alguma. Somente desejava estabelecer um diálogo, conversar. Sozinhos, sem ter com quem trocar ideias, em verdade, dialogam com quem quer que lhes possa dar atenção.

Afinal, os filhos, tendo constituído sua própria família, estão distantes. Os amigos partiram quase todos para o mundo do grande Além.

Então, eles puxam conversa com o caixa do supermercado, no ponto de ônibus, na fila do banco, no posto de saúde.

E contam o que aconteceu no dia anterior, o pequeno acidente que quase os fez cair ao solo, os lances do último capítulo da novela, as notícias ouvidas no rádio, há pouco.

Há quem seja gentil e os ouça. Até responda, demonstrando interesse. Mas, nem todos…

Não pudemos nos furtar a tecer um paralelo, lembrando das crianças que saem a passeio e vão cumprimentando quem encontrem pelas ruas.

E insistem no cumprimento até receberem um retorno.  Acenam com a mão, mandam beijos…

É comum acharmos graça, sorrirmos, e devolvermos os cumprimentos.

Difícil não nos encantarmos com a fala delas, que mais parece uma cachoeira despencando pela montanha abaixo.

Isso porque elas desandam a falar sem controle, misturando a narração da história que ouviram na escolinha com os personagens do desenho animado que assistiram, acrescentando ainda seus próprios comentários.

Contam o presente que esperam ganhar no aniversário, a festa que terão com seus amiguinhos.

Por vezes, nem entendemos o todo da fala, mas sorrimos e nos esforçamos para dar uma resposta, fazer um comentário, que não pareça tolo para esses pequenos, que têm uma lógica própria.

E nos encantamos com eles. Crianças, joias de luz espalhadas pela Terra. Raios de sol brilhando nas nossas vidas.

 

Não é estranho que tenhamos tanta boa vontade com a criança e manifestemos enfado com o idoso?

Se atentarmos bem, ambos fazem a mesma coisa, têm a mesma atitude.

Seria interessante que trabalhássemos nossa emoção.

Por que agimos de maneira tão diferente?

A criança é o botão que desabrocha. O idoso é a flor que murchará, logo mais, se não receber a água da ternura, o ar do afago, o sol da compreensão.

A criança necessita de estímulos para se desenvolver. O idoso necessita de atenção para prosseguir a viver, para ter reabastecido o seu bom ânimo.

Olhemos a criança, contemplando o futuro, pensando no amanhã.

Contemplemos o idoso, recordando a semeadura do ontem, o quanto produziu, contribuiu, ao longo dos anos, para a sociedade, para o mundo e o reverenciemos, no hoje.

Ontem eles nos afagaram, nos atenderam, nos ouviram as mil tolices da infância, os queixumes da adolescência. Cabe-nos retribuir um pouco que seja.

Pensemos: se a morte não resolver nos visitar com antecedência, haveremos de chegar lá, um dia.

E, da mesma forma, ansiaremos por quem nos dê atenção, nos ouça, tenha atitude de quem se importa.

Semeemos para colher.

 

Redação do Momento Espírita

A força do amor

Eram noivos e se preparavam para o casamento, quando o pai da noiva descobriu que o rapaz era dado ao jogo.

Decidiu se opor à realização do matrimônio, a pretexto de que o homem que se dá ao vício do jogo jamais seria um bom marido.

Contudo, a jovem obstinada decidiu se casar, assim mesmo. E o conseguiu, fazendo valer a sua vontade, vencendo a resistência do pai.

Nos primeiros dias de vida conjugal, o rapaz se portou como um marido ideal. Entretanto, com o passar dos dias, sentia crescer em si cada vez mais o desejo de voltar à mesa de jogo.

Certa noite, incapaz de resistir, retornou ao convívio de seus antigos companheiros.

Em casa, a jovem tomou de um bordado e ficou aguardando. Embora ocupada com o trabalho manual, tinha os olhos presos ao relógio. As horas pareciam se suceder cada vez mais lentas.

Alta madrugada o marido chegou. Nem disfarçou a sua irritação, por surpreender a companheira ainda em vigília. Logo imaginou que ela o esperava para censurar a sua conduta.

Quando ele a interrogou sobre o que fazia àquela hora acordada, ela, com ternura, disse que estava tão envolvida com seu bordado, que nem se dera conta da hora avançada.

No dia seguinte, quando ele retornou ainda mais tarde da casa de jogo, a encontrou outra vez a esperá-lo.

Outra vez acordada? – Perguntou ele quase colérico.

Não quis que fosse se deitar, sem que antes fizesse um lanche. Preparei torradas, chá quentinho. Espero que você goste.

E, sem perguntar-lhe onde estivera e o que fizera até aquela hora, ela o beijou carinhosamente e se recolheu ao leito.

Na terceira noite, ela o esperou com um bolo delicioso. Antes mesmo que o marido dissesse qualquer coisa, ela se prendeu ao pescoço dele, abraçou-o e pediu que provasse da nova delícia.

Assim, todas as madrugadas, a ocorrência se repetiu. O marido começou a se preocupar.

Na mesa de jogo, tinha o pensamento menos preso às cartas do que à esposa, que o esperava, pacientemente, como um anjo da paz.

Começou a experimentar uma sensação de vergonha, ao mesmo tempo de indiferença e quase repulsa por tudo quanto o rodeava.

O que ele tinha em casa era uma mulher que o esperava, toda madrugada, para o abraçar, dar carinho.

Aos poucos, foi se tornando mais forte aquele incômodo. Finalmente, um dia, de olhar vago e distante, como se tivesse diante de si outro cenário, o rapaz se levantou da mesa de jogo e retirou-se, para nunca mais voltar.

 

Nos dias atuais, é bem comum os casais optarem por se separar, até por motivos quase ingênuos.

Poucas criaturas, em nome do amor, decidem lutar para harmonizar as diferenças, superar os problemas, a fim de que a relação matrimonial se solidifique.

Contudo, quando o amor se expressa, todo o panorama se modifica. É difícil a alma que resista às expressões do amor porque ele é portador da mensagem do bem-estar, da alegria.

Sempre salutar, portanto, investir no amor, expressando-o através de gestos, atenções pequenas, gentilezas.

O amor é o sentimento por excelência e tem a capacidade de transformar situações e pessoas.

Pensemos nisso.

 

Redação do Momento Espírita, com base no cap. A força do amor, do livro O primado do Espírito, de Rubens C. Romanelli, ed. Síntese

A inabalável certeza de Deus

O jovem acreditava ser uma mente brilhante. Elaborava ideias, imergia o pensamento nos livros buscando maior conhecimento. Orgulhava-se de seu saber.

Certo dia, deparou-se com um filósofo que, extasiado ante o espetáculo ímpar da natureza, expressava sua admiração ao Criador:

Quem é Você que está por trás da cortina das nuvens? Por que silencia a Sua voz e grita através dos fenômenos da natureza?

Por que gosta de se ocultar aos olhos humanos? Deixe-me descobri-lo.

O rapaz, com ar de intelectual, lhe disse:

Você está totalmente equivocado. Deus não existe. Ele é uma invenção do cérebro humano para suportar as limitações da vida. A ciência é o Deus do ser humano.

Sem se perturbar, o filósofo respondeu:

Se você me disser que é um ateu, que não crê em Deus, sua atitude é respeitável. Ela reflete sua opinião e sua convicção pessoal. Agora, dizer que Deus não existe é uma ofensa à inteligência, pois reflete uma afirmação irracional.

Não aja como um menino brincando com a ciência e construindo seu orgulho sobre a areia. Você nunca se indagou quem administra este imenso Universo? O porquê de tanta harmonia?

Sua intelectualidade não lhe diz que todo efeito tem uma causa? E que se esse efeito é grandioso, imensurável deve ser a causa?

Percebeu alguma vez os detalhes das folhas de uma palmeira? A perfeição do ovo? O potencial de uma minúscula semente que traz em si a árvore gigantesca?

Já se perguntou quem deu origem a tantas espécies vegetais e animais? A tanta riqueza que se encontra no seio da terra e na profundeza dos mares?

Guarde a certeza de que você pode duvidar de que Deus existe. Mas Deus não duvida de que você existe.

Muitos filósofos acreditavam em Deus. Não tinham medo de argumentar e discutir a respeito.

Afinal, não sabemos quase nada sobre a caixa de segredos da nossa existência. Milhões de livros são como uma gota no oceano.

Somos, em verdade, uma grande pergunta procurando uma resposta. Ou muitas respostas: Quem somos? Para onde vamos? Por que fomos criados?

A ciência é um produto do homem. Use-a, mas não se deixe contagiar pelo vírus do orgulho.

A sabedoria do ser humano não está no quanto ele sabe. Mas no quanto ele tem consciência de que não sabe. A nobreza de um ser humano está na sua capacidade de reconhecer a sua pequenez.

Silenciou o filósofo. O jovem ficou a pensar. Olhou o sol que brilhava forte, sentiu a brisa leve no rosto, ouviu o farfalhar das folhas que se perdiam pelo chão.

E continuou a pensar…

Deus está em toda parte e está dentro de nós. Quando tomamos de uma fruta e nos extasiamos com a sua cor, a sua textura, o seu sabor, estamos sentindo a Divindade.

Quando contemplamos as nuvens imitando andarilhos pelo céu, e as vemos destilar lágrimas generosas sobre a terra, estamos contemplando o cuidado de Deus com Suas criaturas.

No verde das árvores, no vermelho das rosas, nas cores do arco-íris, Deus se manifesta. No dia abençoado, na noite escura.

No rosto das pessoas que passam, nas sementes que brotam – em tudo Deus está. Permitamo-nos descobri-lo.

 

Redação do Momento Espírita, com base no cap. 10 do livro O futuro da Humanidade – a saga de Marco Polo, de Augusto Cury, ed. Sextante

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