Ezequiel Migri

Ezequiel Migri atua na área de Marketing e Propaganda, compondo jingles, vinhetas e construindo ambientes para marcas e produtos em lançamentos e já existentes no mercado. Na hora de escrever, visita vários temas, alcançando um pouco de tudo, pois à noite surge uma notícia ruim, mas de manhã a visão do velho sorrindo para os brotos de feijão rompendo a terra, acelera de novo a vida.

Você me paga

Você me paga pra eu te mandar chuva pra apagar o fogo que você acendeu pra me devorar

Luva de pelica para mão com que você me bateu

Dar ar pra vida que você quis roubar

Deixar de troco um abraço no meio da intriga que você me deu

Dose de verdade para seu ego cego ciumento

Te tratar a sorriso para te curar essa inveja

se você me pagar…

 

Você me paga…

Eu compro caminhão de bandeiras brancas pra sarar a revolta da terra em que você pisou

Me pague e recupere esse seu tempo perdido que passou me perseguindo

Se esforçando, disfarçado entre os amigos

Me paga e  “faça-se” um favor: perca-se de mim!

Talvez esqueça assim meu nome e nem saiba mais quem sou

Eu já vi…

Seu sangue falsificado de doador

Sua boca de ovelha tem dentes de lobo

Por favor…

Esconda em outro lugar o seu ódio pelo meu amor!

Perca meu cheiro, ignore minha direção, não me perceba

Não percebe…?

Não carrego o que você quer me dar!

Eu navego veleiro

Você adrenalina, tempestade, furacão

Bola e goleiro

Bom mesmo é ninguém se encontrar

Eu salivo manhãs calmas, silencio e até certa dose de solidão

Você; turbulência, estrelismo, disputas, calúnia e difamação

Quero cicatrizar feridas, você abri-las

Acredito em par, você em ímpar

Te incomodo em gênero, número, tempo e espaço

Não andamos juntos…

Eu água, você pedra dura

Sou leite no copo da sua mente bebida: eu te azedo

E sua língua envenena minha cura

Você ama o frio estalo da ruptura e eu sofro o calor lento da união

Não;…

Não sou parede pra sua solitária moldura

Você não é a rima no final da minha canção

Você me paga

Compro uma casa na vila do esquecimento

Vou morar lá!

Até de mim esqueço pra ter certeza de nunca mais te lembrar

Você me paga,

Você nem imagina…

O troco que tenho que te dar é tanto

Que eu que vou me endividar

Pra você me pagar

Pra pagar a revolta da terra em que você pisou

O amor

O amor é razoável.

Ele espera como se pudesse ver no futuro, os dias da felicidade. Acredita esperando em sua força transformadora.

Afinal, mudou homens, mulheres, sobrepujou catástrofes inconcebíveis, venceu guerras invencíveis.

É razoável acreditar em uma força assim.

É sem duvida estável, pois permanece em si mesmo firme a despeito do fulgor da moda das invenções do desconforto do mito.

Sabe que no fim de tudo o que conta é o conforto guardado pra os dias no infinito

E o seu máximo é: “amar meu inimigo até transforma-lo em meu amigo, ou guardar o meu bem comigo”

O amor é perfeito, pois define-se, por todos os cantos que se olha, com o mesmo proposito de adaptar-se as medidas do que é bom para o bem que ele quer dar

Onipresente, pois, sempre cabe, sempre responde, sempre está.

Não se prende ao tempo nem teme as horas.

Se você chamar, se você quiser…

O amor é coeso, é estrutural, compassado pra te dar segurança

Mas também é desconexo, desconstruído, descompassado pra te encontrar em meio essa sua bagunça particular

Ele sabe dar sem receber

Aconselha com o propósito de acolher em sim.

O pagamento do amor são abraços de amigos, sorrisos

Risos marcam momentos com aquele carimbo da vida: “valeu ”

Mas o amor é comum.

Não, não é raro

Pega-pega, esconde-esconde, bolinha de gude

Esta em todo lugar conhece todas as mesas, passeia em todos os lugares

O amor pega metrô, usa jeans, flanela no frio, algodão no verão, passeia em parques e balneários

O amor escreve em diários

Canta no carro, sobe os andares

Bolinho de chuva, frequenta aniversários

Ele enruga com quarenta ou cinquenta e o tempo lhe pinta de branco os cabelos quase sem ver

O amor usa óculos também

O amor é vivo

Ele pulsa!

Ainda que na dúvida, não se acovarda, ele pulsa,

Ainda que no silêncio da solidão ele diz:

Você sabe que eu sei que você pode ser feliz!

A mais valia

Estamos atrás de quem transpira, de quem sabe suar

Quem de manhã veste e sua “sua” camisa no trem apertado com o aluguel atrasado;

– é você que eu quero! Você veste a minha camisa e não consegue mais tirar

– trabalhador você mudar ao vestir minha camisa de força!

Juntos feito uma família; seu segundo lar!

De segunda a domingo uma amizade pra durar enquanto você vive;

E eu: “viva”

Quero gente que fique abraçado com a causa

Pra o “poder” me deixar livre pra respirar e ficar de boa

Tô lutando muito aqui pra te dar bastante trabalho

Pra eu ficar à toa

Eu quero gente! O sistema vende gente pra teto e pra assoalho

Sim; gente é que me serve!

Massa de modelar Zé Ramalho rende mais que gado

Pra entrar no que é dele me pede licença

O favor é pra mim e ele é que diz obrigado

Gente que acredite em mim sem precisar pensar

Aposta seu suado de olhos fechados

Gente que não pense muito, pois seu raciocínio pode me atrapalhar

Gente que só olha pra os pés

Pés que driblam sua cabeça redonda rolando nos campos de quem comanda

E mesmo depois de tanto chute;

Um cidadão que acredite que saiu ganhando

É esse cara que preciso achar

Enquanto invento um jeito de parecer legal e de direito

O milhão do mês que pretendo ganhar

Quero gente distraída…

Que esqueça o passado, pense pra frente, pra cima

Pra me carregar na subida

Quero gente ao meu lado que queira viver a vida que eu quero lhe dar

Que mesmo sem sapato pra o pé, sem emprego, sem saúde, sem hospital, sem médico, sem segurança, escola fechando e sumindo merenda escolar,

Paga por tudo e aguenta

E me sustenta no topo

Com camisa de seda e gravata Gold Empa.

Lágrima improvisada

Como posso te dizer?

Golpe sem aviso de guerra avisada

Meu chão correu.

Num segundo água tranquila, no outro mar revolto

Luta desigual…

Eu velho pés cansados me arrastando para o topo

Você apressada se lançando pra o abismo; é Usain Bolt

Flecha atirada filha…

Flecha atirada não sabe voltar!

Encontro marcado com a ponta de metal

Não é que não quero te ver

É que demora o coração entender que tem que sangrar

Tinta pra escrever essa lágrima improvisada

Entregou-se pra algo que quer te destruir e vai te corroer

Esse sentimento estranho vai te perseguir

Entrou em suas veias líquido ácido

Vai a caminho do seu coração e depois deixar por onde você passar pegadas escuras

Assombrada pelo medo, perseguida pelas ruas

Vai doer filha…

Vai doer…

Quando você acordar deste veneno e entender que se perdeu

Que esse sentimento estranho te levou por um caminho pseudo e no espelho não reconheça

Acredite: Vai doer!

Então olhe pra cima e grite, grite meu nome

-Pai me ajuda! Eu não consigo me achar!

Eu te acho pra você!

Sei exatamente onde você está entre a criança a adolescente e a mulher.

Guardei comigo; escondi em mim a fotografia de quem você é

Guardei no peito, construi um abrigo pra te proteger do seu inimigo

Escondido comigo o segredo de quem neste mundo você realmente é

Você não é a desconstruída

Você é e sempre será o que nasceu pra ser filha

Sem dúvida;

Uma mulher linda!

Eu comigo

A gota da chuva no espetáculo da descida… Linda!

Mas é fria, resfria!

Devo evitar.

A noite prende meu olhar!

Te encheram de luz lua

Atriz principal no pano do fundo escuro; tem estrelas por plateia

Quem sou pra te espiar?

Muito alto… Não devo ficar olhando.

Ando querendo arriscar sonhar um sonho de crescer

Dar um passo, avançar, cruzar a cancela

Me desabraçar…

Tô pensando em ir mesmo desta vez

Sem desistir

Se cair… Tô pensando em levantar,

Atravessar sua rua chegar até a outra esquina

Me olhar dentro dos olhos  e te cumprimentar

Intimidar,

Me extrair na unha no dente

Mudar, virar, surgir de repente

Nem pau nem pedra, nem ontem nem amanhã

Ser pra valer, ser agora; ser de frente

Me transformar raro espécime:

Gente!

Desencasular do tímido

Desaparatar das asas do sonho e andar

Endurecer, respeitar minhas cicatrizes

De manhã com meus botões

Tomar calado no silêncio

O chumbo quente mastigando meus parafusos

Afinal minha vida sou só eu

E meu assustado coração descompassando em meio a tudo isso

É o que tenho…

Se penso não arrisco

– Não! Não devo fazer isso

– Acho que não estou me ouvindo!!

– Sair por aí assim? Pode ser que eu encontre comigo! E se acabar me reconhecendo? Que perigo!

– Adeus eu. Sei você não vem comigo! Boa noite

– Boa sorte. Adeus! É melhor entrar…

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