Ezequiel Migri

Ezequiel Migri atua na área de Marketing e Propaganda, compondo jingles, vinhetas e construindo ambientes para marcas e produtos em lançamentos e já existentes no mercado. Na hora de escrever, visita vários temas, alcançando um pouco de tudo, pois à noite surge uma notícia ruim, mas de manhã a visão do velho sorrindo para os brotos de feijão rompendo a terra, acelera de novo a vida.

Água

Pra que serve a água?

A água é de quem?

Água na escola, em casa, água pra chá do moço ao idoso

E oito copos por dia diz a melodia, que faz bem ao coração

Água pra ferver, água de beber, água pra secar

Água de coco, pra molhar,

Água pra o bico, água pra os bichos

Pra o pato pra o rato pra o cachorro, cavalo, porco, marreco e ganso

Pra plantas e até pra inseto

Água fria e doce de remanso.

Tempestade é água pra chorar

Inunda a mundo do piso da casa até o teto

Engarrafada importada é pra festa de bacana, água na piscina junto com a destilada no final de semana

Água em abundância…

Não é pra todo mundo que tem

De quem é a água?

A água é de quem?

Água pra seca na fresta da terra, água pra descanso ao coração suado do meu povo cansado à espera da água que não tem

Água da chuva no campo de quem planta também é festa

Água do choro molha o canto do olho, e desce no coro do rosto de quem no sol resseca

Água pra quem?

Água barrenta água “saloba” de cacimba

Na mão, o balde da minha aflição que espera no ponto apontar a ponta do caminhão

Água não vem hoje não…

A conta, conta as horas pra acertar a prestação

A vela queima a última gota de óleo e aí vira a escuridão

Mas a água; a água não vem não

Poeira encobre as vista e apaga a pista da esperança da chuva

As árvores desenham barras secas de uma prisão de fogo dentro do olho do meu sertão

Imposto, iptu, pedágio, rescisão tudo aqui chega

Mas a água…

Essa chega não

Paga-se pra nascer e tudo aqui se paga, pra morrer de sede quanto me vai custar?

Vou-me embora.

Minha água vem hoje não

A água que careço de novo errou o endereço e me deixou seco de balde vazio nessa imensidão

– Não mandaram água não viu filha! Coma farinha seca e vá dormir menina!

– Quem é que não mandou painho? De quem é essa água? A água é de quem?

Se eu falasse seu idioma

Se eu falasse em seu idioma eu não diria o que quero, mas o que o coração precisa ouvir

Eu seria mais que um amigo…  seria um abrigo pra quem se perdesse

Poucas palavras em seu idioma e tudo acende, o ambiente se transforma.

Em seu idioma meu coração vai mudando sereno… e assim como a manhã possui a noite completamente até ser dia perfeito em todo céu; eu também me rendo a sua perfeição absoluta

Quando seu som me alcança no meu deserto, na minha solidão, eu descanso

O resultado da equação da sua fala transborda dentro do meu coração sua suave e mansa ortografia

Então; estou em sua sala!

Eu em uma infinita aula da sua língua todos os dias.

Se eu falasse sua língua acordaria completo, letrado, formado, doutorado. Saberia conjugar todo e qualquer verbo a qualquer tempo:

Nascer, sorrir, esperar, abraçar, crer, cantar, viver!

Se eu soubesse dizer com suas palavas o que você sabe dizer o tempo nos esqueceria e sem perceber; jamais passaríamos

Eu importaria para dentro de mim sua gramática perfeita e nunca mais ficaria sem saber escrever o que meu coração ditaria

Se falasse seu idioma, nunca mais seria preso a velocidade nem a dor ou solidão da idade pois versaria com você.

Se eu falasse sua língua eu entenderia a chuva, o sol frio e a solidão da cidade

Se eu aprendesse seu idioma, eu compreenderia a desilusão dos homens nos bares, eu conversaria com os desesperados eu escutaria os que não falam, eu falaria aos que não ouvem

Se eu falasse sua língua eu conseguiria descrever todas as cores os aromas e a felicidade para aqueles que nunca a viram

A tradução de “vida” em sua língua acorda em mim a felicidade adormecida

Seu sotaque tempera as poesias, paralisa o ódio, vence o ciúme, atravessa as avenidas, mares, colore as esquinas, sorri pra os esquecidos, encontra os desesperados escondidos e condena a condenação que os afligem.

Seu idioma deixa abraços nos diários dos sozinhos, paz no coração dos atormentados, começo na história dos terminais, prosseguir pra os que chegaram ao fim

A sua língua escrita não pode ser comprada pois não a como ser vendida

Sua letra tem a perfeição escondida na consciência de quem acredita que a frase dita só pode ser dita se for do coração que nascer

Em sua língua ninguém sentiria falta de ouvir “Amo você” pois em seu idioma, sentir tem que vir antes de dizer.

 

Às vezes

Às vezes são sedutoras…

Quando percebemos, passou e aconteceu

Persistentes, às vezes insistem no que não deu pé

Às vezes separados ou misturados

Às vezes é você

Às vezes sou eu

Às vezes se articulam aleatórias, sem importância…

Às vezes ácidas, às vezes inflamatórias, detentoras da razão

Às vezes passam perto ignorando aviso

Às vezes sem pé nem cabeça, desnorteadas pela bússola da ilusão, atropelam no coração alegrias e dores

Mas às vezes sabem inventar flores de papéis, esticar por anos aquele segundo

Às vezes são azuis como o que você me deu

Às vezes pratas como os meus

Esquecem, disfarçam, se entristecem, se arrependem lamentam

Às vezes choram e admitem que doeu

Às vezes nós

Às vezes você

Às vezes sou só eu

Mas os avezes, avezes são: inventores de jardins na cidade fria, alegrias autênticas de riso estalado na rua

Mimicas, se multiplicando ao lado, a frente, atrás de você, … até me ver

Até você chorar de rir…

Até você querer ir

Às vezes só até parar e olhar pra mim…

Às vezes…

Às vezes também é o que é: é quem sabe, é talvez, é não ou é sim

Sua presença incerta, insegura, provisória é que me faz seccionado, indevido, precatório,

Às vezes meu amor, é não combinado, é não pronto, não acabado

Às vezes fica soa por acaso

E afinal o que é o às vezes?

Onde mora?

Entre o quase certo e o pouco provável?

O às vezes apaga, a vida é acesa

Às vezes é meio, amor é inteiro

Às vezes é dúvida e eu tenho certeza

Às vezes é esquecimento, sentimento é memória

Às vezes é lenda, amor é história

Nós soltos por dentro, os dois presos por fora

Os nós e a linha

Às vezes você

Às vezes eu

Você às vezes meio que meio minha

Eu às vezes meio que meio seu

O gosto

Gosto se repete na boca assim coma a boca repete o gosto no tempo.

E o que penso que esqueço, a lembrança gustativa do sentimento com seu perpétuo movimento me invade de novo e me leva pra  você

E tudo que me faz bem; vem!

Aí então pra manhã embrulhada no jornal do dia a notícia somos nós dois

Gosto de manhãs!

Mas às vezes a pressa que é tempero inevitável no meu dia, quase despercebo seu gosto, e me irrito na velocidade da vida presa na lentidão do trânsito, no recheio do metro, na burocracia da justiça, na precariedade da minha saúde esquecida na fumaça desnutrindo-me no ronco do motor

Diesel, buzina, álcool, gasolina…

Respiro olho pra cima, apoio meu queixo na mão e lembro você como num truque

Tenho sensação de que perco fatias doces da vida pelas avenidas dessa cidade cinza

Isto me assusta!

A corrida pelo supérfluo é a receita perfeita da automação

Tenho medo.

Fome, desnutrição, pó, anabolizante, vício, inalação…

E se te perco pra toda essa confusão?

E se te esqueço pegando qualquer vírus de dissolução de sentimento?

Ou perco seu endereço em meio a tanta placa e cimento?

E imagina, ninguém ainda sequer inventou o Museu do Esquecimento pra guardar nossa memória

O que acabou de mudar já não está mais no mesmo lugar!

Vírus, vermes, germes roendo o osso, o bolso, no cérebro do cerne querendo roer nossa intenção

O mundo solto no trânsito dentro da nossa vida sem placas, sinais ou sinalização verde, vermelho ou qualquer atenção

Somos bilhões de variáveis em meio essa infinita equação

Milhares de estradas da janela do avião

Mas quase sem perceber meu caminho me leva pra você

Que gosto tem você?

O sabor da simplicidade que chega sem a gente perceber

O aroma transparente da veracidade

O tempero do equilíbrio

Tem gosto de que ficou no fogo o tempo certo

O sabor  se misturou de um  jeito que não é mais você que tem gosto, mas é o gosto que tem você

Sabor da água pra sede

Foi pra mim o sabor que você escolheu ter

Precisa-se de homens-bombas

Precisamos de homens-bombas com urgência.

Não precisa experiência, só coragem

Sem meias palavras, sem timidez

Todo municiado com os olhos carregados de misericórdia

Até os dentes de esperança, mãos cheias de perdão

Tem  que olhar no fundo dos olhos de cada um antes de se explodir e então… deixar a lágrima da piedade escapar e sorrir

que tenha consigo bombas pra tudo que é cor e tamanho

Bomba pra explodir o ódio entre os homens

Bombas pra explodir tristeza

Bomba para efeito apaixonante

Bomba pra explodir depressão

Bomba de explodir fome, explodir solidão

Bomba de descanso pra o fim do dia

Bomba de alegria pra explodir a dor da notícia de Franças e Turquias

Precisamos de homens que nos junte numa grande explosão mundial de humanidade pra refazermos os despedaçados

pra poder haver amanhã e fragmentar a bomba do “nunca mais”

Homens-bombas que nos junte e não nos despedace

Homens que não se achem superiores; mais iguais

precisamos de homens pra explodir ideias e ideais

Homens-bombas que nas filas, nos bancos, nos shoppings, nas casas, nas escolas e pelas esquinas das ruas não temam o horror

e noite ou dia sem aviso explode seu coração de amor

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