Ezequiel Migri

Ezequiel Migri atua na área de Marketing e Propaganda, compondo jingles, vinhetas e construindo ambientes para marcas e produtos em lançamentos e já existentes no mercado. Na hora de escrever, visita vários temas, alcançando um pouco de tudo, pois à noite surge uma notícia ruim, mas de manhã a visão do velho sorrindo para os brotos de feijão rompendo a terra, acelera de novo a vida.

Histórias de um coração – Meu coração mudo

Meu coração é mudo!

No momento, no instante de te dizer, de te falar; não encontro o som das palavras.

Descobri quase que por acidente quando você chegou

Ainda quando te vejo, e você me pega no susto; meu coração dispara…

Então as palavras circulam as veias, enchem os vasos, elas invadem os pulmões e tomam conta de mim

E nem assim; sai o som

Meu coração despercebe quase tudo ao redor; abandona e ignora cerebelo e seu equilíbrio

A base da reação fica desconexa, torta e abandona ao léu a respiração

Meu mundo altera as substâncias

A erupção da horta é um cuidado

A greve das palavras mudas…

Elas querem seu direito de expressão, querem ir

Querem seguir seu caminho

Acreditam que nasceram para mudar meu mundo com suas exclamações

E que mesmo após interrogação e ponto final cabe etc., reticências

Descansarem em suas vírgulas, pausas de respiração, os corações cansados

Os assombrados  pelo monólogo dos dias esquecidos, pelo silêncio absoluto da felicidade

no barulho ensurdecedor das cidades desse mundo surdo

Sufoca a nobreza da verdade

E eu no silêncio do meu frágil e raro mundo do coração mudo

Só queria poder dizer que apesar de tudo, mesmo sem jamais ser;

Acredite… poderia ter sido.

 

Migri

migri.marketing@gmail.com

(35) 98402-7065

O silêncio das coisas

O vaso quebrou

derramou-se devagar nos dias

Deixou entornar aos poucos o sentimento que você colocou

Partiu-se a peça

Bonito que era; agora refugo de oficina

Aço perdido da matéria-prima que você inventou

Não se sustentava, não se condizia

Não sobreviveu ao calor

Não permanecia além do momento e qualquer distração lhe roubava a vida

Qualquer emoção lhe subtraia a que vinha

Perdeu-se,

Perdia-se

Não sei se por que lento e demorava entender

Não sei se por que rápido e nem viu o que via

Confesso bonito; o que um dia foi lindo

Não foi mal querer…

Solto demais…

Suas pontas ao vento não lhe tornavam capaz de estar

O equilíbrio das coisas se perdia das mãos e caia

Se desfez,

Se desfaz

Sumiu no vão do silêncio dos dias

Sem estalo de beijos, café sem bom dia

Desapareceu entre a inercia das coisas

Bilhetes ao meio, a data esquecida, a flor que não veio

A vaga vazia, a porta trancada, o tilintar das chaves na mesa,

O ”Cheguei; já não chega

Tudo calou-se de vez

– Eu te amo…

Nunca mais ouviu-se na casa

Três palavras trocadas

– Estou indo. Adeus!

Amanhecer em outro lugar

… quero amanhecer em outro lugar

Não amanheço…

Isso parece um filme onde o papel que tenho, não vivo; exerço.

E ao final da fita, o que sera do personagem?

Preso vendo a tela se apagar e todos partirem.

Alguns emocionados, outros achando injusto o final, outros mais que justo, alguns achando que me faltou sofrimento, e outros as lágrimas lamentam minha dor, uns acreditam que perderam tempo, outros querendo continuação. Mas…

Mas ao final todos deixaram a sala.

Todos partem com  suas luzes ascendendo e fico sozinho com as minhas apagando

… me viro do meu jeito.

Sim; saio da sombra, procuro-me atrás do projetor da vida acho-me sem maquiagem no espelho

São outros olhos, outros cabelos.

Mais velho, mas outro.

Ser outro, enquanto o tempo permite, enquanto para mim o tempo existe retificar, ajustar algumas coisas…

Tentar, como puder, do meu  jeito

Assim como quem sabe meu coração em outro peito, ainda que dentro de mim, olhando-me para o que não reconheço

… quero amanhecer em outro lugar

Mas não amanheço…

Querer reinventar-me de forma tal que sem saber que sou eu, tropece em mim

E ser um tão completo estranho para mim, que  não reconheça tropeço e nem tropeçador

… preciso amanhecer em outro lugar

Preciso partir…

Abrir a porta do meu peito e  sair

Caminhar…

Se comigo eu não for, sozinho irei.

Afinal minha identidade aqui, não fala de mim e o número do meu CPF não  justifica quem realmente sou.

Alimento o sonho de um futuro, que ainda que lá eu esteja; jamais estarei

Vejo minhas pegadas espalhadas por uma estrada que nunca pisei

Preciso me desapegar das coisas que eu queria ser e não fui e assim parar de perder esse tempo que me é dado agora com o que sou

Onde está em mim agora o que serei ou o que devo ser?

… quero ir pra casa

Amanhecer onde conheço…

Quero ir pra casa do meu jeito

Do meu jeito…

Sim; o meu jeito!

Desconstruir o sujeito que agora vejo e convivo e acreditar naquele que pode vir a nascer.

Dar luz a mim mesmo

E ainda que seja pelo avesso, me vestir de um novo começo

Aprendi que mesmos os conselhos mais válidos vem com anexo:

“a vida é sua!”

Talvez nisto tenha achado a verdade

Uma passagem, meu passaporte pra casa

Minha formula não é perfeita

Talvez minha despedida não seja a mais perfeita

Mas minha chegada aqui também não foi

Mas o bilhete da sinceridade está em minhas mãos

Estou na plataforma sem mala e sem bagagem e aguardo o apito

Quando embarcar meu trem partira

Vou me acomodar do meu jeito

Sim do meu jeito

Vou dormir pra essa longa viagem.

Não nos falaremos mais por agora.

Vou descansar.

Acordo quando meu trem chegar na estação

Acordarei na minha cidade. Verei o meu sol, tocarei nas portas.

Não se preocupe pequena.

Estarei feliz como voce nunca me viu.

O  importante é que tudo passou e que por maior que tenha sido o grito da dor, o silencio da paz agora me cobriu

Falhei…

Voce sabe e eu sei… mas você sabe também que o que de bom eu queria fazer (se é que algo de bom fiz) e ainda quero; foi e é sincero

Demorou e sofri muito mas, entendi:

“a vida é simples com um segredo”

Entender que cada um responde as coisas dessa vida e reage do seu jeito.

E então, para não sermos devorados por nossa lógica, cálculos, razões;

Para cada erro colocados de um lado da balança existe um contra-pesos para o outro lado, chamado sinceridade, misericórdia e outro perdão.

Descobri ainda outra coisa; que o dono do perdão é o amor.

E quando chegar a hora que toda razão humana e toda pretensa sabedoria se dissipar e em você nada restar; você estará exatamente onde estou.

Abaixara a cabeça e olhando para si percebera que em você não a mais defesa nem argumentos, você entendera além, que na verdade você nunca teve.

Será nesse momento que seus olhos marejados então se esticaram olhando pra o outro lado da balança suplicando por misericórdia então surpresos encontrarão com um par de olhos cheios dela esperando em silêncio  pelos seus.

Aí, e só aí tudo se iluminará.

Você enxergará a luz!

Se dará conta como era tão fácil viver e ser feliz.

Entenderá que quem você precisava que te amasse pra tudo dar certo; sempre, sempre te amou e te amou e te amou e continua te amando.

E o peso do perdão tomará seu lugar na balança a seu favor.

Sempre foi o amor, sempre foi o perdão o real significado da vida

E todos, todos sem excessão precisaremos dele em um momento do outro lado da balança

Digo isso agora porque meus olhos já marejados se esticam para o outro lado da balança, esperando…

Perdoe se não pude fazer mais…

Mas confesso; fiz o que podia, o que minha força dava, o que eu conseguia. Sei que não bastou e sei que errei. Sim falhei…

Mas foi  assim…

I did it my way.

Envenenamento

Poeira, óleo diesel, fumaça,

Dependência, novo jeito, nova moda, novo estilo, nova droga

Via net, via rádio, bebendo seu pensamento por canudo pela tela da televisão

Curto sua curta existência curta, em minha transmissão!

O vício de seguir é a sedução do momento

Sente-se e não se preocupe com nada;

Minha engenharia aperfeiçoara seu

Envenenamento….

A sua tristeza faz meu ibope

O meu truque é por seu choro na sala pra que o telespectador não troque

Conto suas lágrimas pela quantidade de aparelhos ligados ao meu show

Então chore copioso que com todo carinho e amor, vendo seu sentimento pra o meu patrocinador

Não posso resolver tudo agora..

Deixo pro próximo capítulo pra poder aumentar o preço prometendo pra o próximo episódio um público esmagador

Isso não termina…

Seu choro tem que encher minha piscina

Me enriquecer com sua pobreza parece ser mesmo sua sina

Minha foto com autógrafo no seu porta-documento

Querer ser eu; é o seu envenenamento.

Vinte quatro horas online estou a sua disposição

Você manda

Você tem o controle! É só apertar o botão.

Esse é o slogan do grande truque da sua submissão

Não levante fique sentada,

Juntos para sempre, fast-food eternamente

Sou seu amigo e eu não ligo pra sua condição, saúde nem silhueta

Não fique zangada pensando na altura da sua pressão

Feche a porta, a janela

Muita luz atrapalha visão

Você me enxerga melhor no escuro

Onde abro essa porta pra escuridão

Aumente quanto quiser seu consumo

Sacie essa sua fome enquanto isso te consome

Me desligar? Não! Nem por um momento

Enquanto você dorme eu fico hibernando em sua mente o meu conhecimento

Seu dinheiro mantém a nossa relação

Comprei o direito de ir direto na veia alimentando seu coração

Envenenamento…

A nata da situação, o truque do envolvimento o laço da submissão

Arrasto o caos da velocidade em cadeia,

Invento uma verdade na minha mentira e te prendo nessa teia

Tenho que te deixar

Se quiser; pode chorar!

Engarrafo o choro pra vender pra outro show na Europa onde irei morar

Lá seu choro vira chocolate da melhor qualidade, vinho da melhor safra, dinheiro de melhor valor

Não fique assim tão surpresa, decepcionada, quando desço do meu jaguar e subo a bordo da minha nave espetacular

Você sabia que eu ganhava, você me seguiu pelo blog twitter, instagram

Você me deu ibope

Me acompanhou quando eu comprava

Eu pensei que fosse isso que você queria!

Eu vivendo o sonho que você sonhava

Já que você não podia; me financiava.

Eu sou Top!

Não vamos brigar agora né?

Pense assim, você agora  faz parte de mim

Cada vez que pisar em cima de um parafuso do meu jato particular com meu Salvatore Ferragamo; vou lembrar seu nome

Dúvida? Quer ver? Vou pisar e vou dizer. Agora; lá vai:

– FÃ!

Minha saudade é tanta, que já fiz camisetas com meu rosto numa estampa

pra você usar e se despedir de mim no aeroporto,

Mal posso esperar…

Meu empresário gravando, você gritando até as tampas, vendo meu avião decolar

Eu no conforto voando pra o firmamento e você no chão acenando aquele lencinho sujo de bolso e de batom

É um momento tão singelo, tão sincero

Uma troca de energia, uma alegria, um momento meu e seu

Você me dando fama e eu te dando adeus

Mas…

É meio patético confesso!

Nem te conheço! E você soluçando, gritando comigo no ar!

Você é falsa! Não me ama nada. Me deu tudo isso e tá ai pedindo pra eu não partir?

Mas eu entendo….

Eu to mesmo mais pra ir.

Não estou nem um pouco querendo ficar

Não se preocupem…

Logo outro astro vem pra te iludir em meu lugar

C’est La Vie.

A indústria não pode parar.

Somos um universo sem formas de caras e rostos

Bocas sem corpo, sem dono que se encaixam em qualquer lugar

Somos um inverso de Charles

Somos máquinas não somos homens.

Ninguém aqui quer que você fale

O que vale é sempre te dar aquilo que te consome

Durma sua vida, e pague pra que eu viva o meu momento!

É isso…

No final; a beleza da fruta sempre foi meu argumento

Enfim…

A dose é letal; mas o veneno é lento

Não percamos mais tempo e etc, etc, etc,

Sem esquecer o tal

Envenenamento….

Dias sem você

Os dias que te quero, parecem não ouvir

Grito seu nome e o silêncio responde:

– Não escuto!

Uma brincadeira do silêncio que se inspira na não respiração

Vivem sem brisa, sem alento algum, sobrevivem sem sombras, não conhecem amor nem medo

É um jogo lúdico em que se aprende esconder o coração

Sem você, os dias tramam por demais os tais “talvezes e serás”

Ensaiam horas, imaginam outros segundos em outros dias….

Por conta disto, meus dias não começam mas permanecem presos

Sem você, acordo cedo parecendo que o dia terminou

Meus dias nascem ao avesso!

Sem sentido, sem enredo

História que ninguém viu, livro que ninguém leu, conto que ninguém contou

Ora no ponto final de tudo; ora no começo que nunca apareceu

Eles, os dias; veem e não os admiro; só os reconheço

Procuro um espaço entre estar e existir; e me deixo passar

Deslizo entre as horas de zero a vinte e três e cinquenta e nove

Fujo da ponta do ponteiro que me persegue exatamente porque não se move.

Passo a noite vigiando meu sono acordar

Avanço com dificuldade meus minutos sem você

São dias inacabados, construções abandonadas, paredes por metade

Quartos sem sono, cozinhas sem pias, roupas sem dono, salas sem mobílias

Sem você meu dia é um ardil, uma rede, uma porta para a parede

Estrada em volta de si sem jamais chegar

Na agenda, o tempo adia pra próxima página, no próximo dia seu nome

Nesse esconde-esconde de te esconder

Conto os dias do meu calendário

Dias nascidos sem vida….

Trezentos e sessenta e cinco obituários.

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