Ezequiel Migri

Ezequiel Migri atua na área de Marketing e Propaganda, compondo jingles, vinhetas e construindo ambientes para marcas e produtos em lançamentos e já existentes no mercado. Na hora de escrever, visita vários temas, alcançando um pouco de tudo, pois à noite surge uma notícia ruim, mas de manhã a visão do velho sorrindo para os brotos de feijão rompendo a terra, acelera de novo a vida.

Não há ninguém aqui?!

Doutor assina aqui mas atende noutro lugar

Não há ninguém aqui!

Eu não sei onde estou, ninguém sabe onde ele está

Medicamento acabou e pra o mês que vem irá atrasar

O INSS negou quem a saude indeferiu

Não há ninguém aqui e em nenhum outro lugar

CPMF sumiu até acabar

Ninguém vê ninguém onde você está

Deu pane na net e o pagamento atrasou, o gás deu de acabar

Trânsito engarrafado, ônibus quebrou, asfalto esburacado e o metrô parou

O IPVA  agora adiantado e aumentou

Corra pra pagar!

Não há pra quem reclamar

Se quiser pagar; tem quem te atenda no particular

O rio transbordou, a chuva levou, o frio chegou

A fome bateu, a sede vazou, vacina não tem e a água sujou

De um jeito sujeito;  bactéria vai te pegar

Não é nada certo.

Aqui ninguém acertou!

Mas, se quiser pagar; tem quem te atenda no particular

Quem foi que gritou?

Quem é que reclama?

O que foi que reclamou?

Ninguém te ouviu…

O gol não deixou, o carnaval, os fogos do morro que desce pra pista avisando que ela chegou

A herança da novela na sala, calou e ainda cala a avó, a mãe e a filha

O grito dos afogados da lata, o Rátátá… nas esquinas

O alto custo das gravatas em Brasília

O barulhoo que ensurdece o Brasil

É neurocognitivo…

Chamem Ann Grabyel… ela descobriu

É preciso “Luz” pra controlar a pilha no cortice do “IL”

Não há ninguém aqui, ninguém te ouviu

Venha seis meses antes da doença pra dar tempo de agendar

Não há ninguém aqui cidadão

A escola fechou por ordem suprema

Portão derrubaram, mato invadiu, as carteiras quebraram, o computador roubaram e a merenda sumiu

Trocamos um professor por semana

As meninas que ficaram o vício arrastou,  e os meninos  que tentaram o esquema da esquina engoliu

Nem drama nem dilema

Ninguém ganha pra te ver chorar

Se quiser pagar: tem quem te atenda no particular

Cidadão entenda; ninguém tem nada pra te dar!

Não, não! Faça-me o favor

Não deixe te assaltarem ou atacarem agora

Marque pra outro dia, outra hora

São vinte e trinta e a delegacia fechou

Não adianta apanhar e nem bater

Não tem ninguém aqui que jurou te proteger

Se quiser pagar; tem quem te atenda no particular…

Ou se não vá…

Vá hoje mesmo

De algum jeito sujeito e me pague, em alguma loja, shopinng ou online

não espere acordar se não você não irá pagar

O IPVA, IPTU, IR, SUA MULTA, ITBI, IE, II, IPI, ICMS, PIS, IOF, ISS,

O CSL, OAB,  CRC, CREA, CRECI, CORE, INSS

AFRMM – o tal adicional de frete, FAER, FISTEL, FGTS

FNDCT, FND  e o  DPC

SAT, SEBRAE, INCRA, SENAC, SENAT, SESCOP, SENAI, SESI, SESC

Ah si… pague o COFINS

Se anime rapaz…

Não tem fim o que eu posso inventar pra você pagar pra mim

Se fizer tudo certo quem sabe ainda de dou um AhAhAh+

Ah; a gente não esquece; mesmo se você esquecer: pague  ITCMD.

Muito importante pra ter como te cobrar depois que você morrer.

 

 

Ezequiel Migri

migri.marketing@gmail.com

(35) 98402-7065

Estrela

Será que você sabe que eu choro?

Sabe que dentro de mim há e sempre ouve “Um Sozinho”.

Será que você sabe que aqui dentro tenho uma porta aberta pras cinzas?

Que dentro de mim, dentro de você, há uma conversa intima, uma tentativa de acordo entre o início, o meio e o final.

Será que você sabe?

Será que te contaram a historia toda, real?

Será, Estrela?

Sou embarcado em meu voo marcado para a solidão.

Meu velho coração engasgado guarda um grito sufocado.

A festa demorou…

O terno que guardei pra vestir nosso sonho, agora é roto.

Meu amor; capitão dessa embarcação, me cobra um porto.

Inocente… não há porto!

Não há final a este ponto.

Foi ilusão…

Navegar é preciso coração.

Viver… viver não.

Os dias passam nos abatedouros dos anos.

Os porões…

Os porões guardam lá no fundo os sons surdos das batidas das ondas enfurecidas.

Quantas tempestades?

Quantas reformas?

Vigas, tábuas e medidas substituídas?

Quantas festas, mágoas, quantas mãos.

Quantas vidas afogadas, bebidas nestas águas.

Quantas preciosas cargas perdidas.

Ainda que fosse ouro, prata, dinheiro… seja lá, como se diz, tudo acaba.

Mas você não, você não!

Sua lembrança; seus pequenos olhos de jabuticaba.

Estrela que andava comigo no chão.

Sua ausência me adoeceu, e o silêncio; o silêncio me levou.

De repente, bruta; sua falta me roubou a direção, rompeu as artérias.

Agora, a areia me avisa da urgência escorrendo na ampulheta.

Eu desespero e espero seu aceno, seu brilho, qualquer sinal seu na escuridão do céu no meu quintal.

 

 

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O berço que me devora

Eu aguardava na antessala.

– Brasília me traz o cidadão.

Respirei fundo aguardando o chamado, mas de onde estava sentado vi pela fresta da porta, a Brasília com um objeto como um funil de metal e o excelentíssimo Higienizável, cuspiu dentro.

-Pode levar o cidadão.

Uma escarradeira. Horrível até de descrever.

– Brasília! Peça para limparem o banheiro da visita. O povo deixou parte de sua via lá. Sabia Brasília que ali está toda a descrição da vida do cidadão? É cientificamente provado. Digo com certeza que aquilo é a vida do cidadão.

– Entre cidadão. Deduzi, visto que ele não chamou Brasília para pegar o outro cidadão, o cidadão em questão fosse eu. Entrei.

A figura perfeita do imaginário popular do caso referido. Levantou-se com a voz que acompanha a figura. Estendeu a mão:

– Digníssimo cidadão, sente-se, por favor. Como posso ajudá-lo? Em que posso melhorar sua vida? Duas palavras que não queria mais ligadas a mim; Vida e Cidadão.

– Sou da gráfica. Vim receber o serviço dos cartões de visita.

– Claro, claro, deixa só a Brasília fazer a papelada.

Ele criava avestruz. Elas ficavam bicando a janela dele. As pobres coitadas eram tão magras e o Deleitável, tinha o higiênico costume de jogar ossos e resto de comida pela janela e então; com fome, bicavam até lhe atirem restos.

– Brasília, traz a “Emenda”. Vou dar um jeito nesse povo. Emenda era uma espingarda municiada com balas de borracha que ele usava com bastante satisfação para manter afastada as avestruzes de sua janela.

O distinto nomeou cada uma:

– Aquela é a educação. Fique longe de mim seu monstrinho. – E mandava bala.

– Segurança quem manda aqui sou eu! E tome bala – A Segurança estava sempre com a cabeça enfiada num buraco. Ele ria e dizia:

– Ela deve estar fazendo alguma investigação com a cabeça enfiada no chão – ele ria.

– Moradia; essa me parece não ter jeito, vive na rua. Mas é bom dar umas borrachadas pra não se subverter.

– E aquela? – perguntei apontando pra uma bem pequena do tamanho de um franguinho – É um frango?

– Ah aquela… Não… aquela é meu orgulho! Nós fizemos umas experiências genéticas. Sabe fico comovido em falar disso porque pensam que ficamos aqui só comendo, bebendo, viajando e não estamos fazendo nada por ninguém. Mas veja só esse caso, gastamos muito em pesquisas, horas de plenários e votações e mais votações e volta as câmaras e plenários, viagens e mais viagens pra trazer modelos e mais modelos. Sabe modelos de trabalhos?

– Modelos… Sim eu sei.

Pois é… Não é fácil não! – interrompeu-se assoando o nariz num arremedo de lágrimas. Recuperou-se com um sorriso e disse em tom solene:

– Conseguimos: Encolhemos a avestruz!

– Vocês fizeram o quê? Encolheram a avestruz? Mas pra quê?

– Ora, ora meu cidadão! – disse meneando a cabeça – Você não entende…

– Entender o quê?

– A vantagem… Claro, desculpe, você não conseguiria entender assim de pronto. Mas eu entendo afinal, a sua vida… bem a sua vida é… bem sua vida é digamos, diferente da minha. rsrsrs… Bem diferente não é?

– É … Creio que sim. Bem diferente.

-É sim – disse ele – com certeza – rsrsrsrsrs – A vantagem meu cidadão é que eu gasto bem, mas bem menos kkkkkk… E ninguém pode dizer que não tenho avestruz. Gostou?! Simples e genial. Como você pode ser incapaz de ver isto kkkkk. É por isso que você tem essa “vida”… kkkkk.

– Continuo não entendendo… Qual o nome da encolhida?

– Saúde.

– Entendi… Agora entendi tudo!

– Mas gostei de você sabe?!

– Não sei se agradeço…

– Imagina não tem de que!

– Justo – respondi

– Vou te contar um segredo – disse me abraçando

– Já sei – respondi – você vai encolher todas as outras.

– Hei?! Você tem jeito pra coisa! Quinze minutos comigo e já tem o “filling”.

Será que me infectei – pensei

– Sim vamos encolher todas! Segurança, a moradia… Bem, a moradia tenho dúvidas?… ela não me dá trabalho?! – diz coçando a barba – Mas é melhor encolhida que da pra empilhar mais. Ah, e tem a tal da EDUCAÇÃO – sua testa franziu, sua expressão mudou. “Educação” saiu numa mistura de ódio e medo – Sim a tal da educação… Eu tento, faço de tudo para mantê-la bem distante daqui, sabe. Mas ela é inteligente, sabia. Não se pode brincar com ela. Outro dia, quando dei por mim, ela estava aqui em meu gabinete. Na hora eu gritei por socorro a guarda. Aí, 5 entraram; e acabou tudo. Mas desde então ela fica lá longe, me espreitando de dia e de noite com seus olhos inteligentes. Ela tem uma cria, sabe? À Escola… fica lá também. Mas eu não estou nem aí! Não dou comida pra escola, não dou apoio pra essa raça. Apoiar pra depois me pegarem? Eu não!… Fica nos observando está vendo? Ela sabe que estamos falando dela! Que animal terrível! Vê? Ela me dá calafrios. Tem um pessoal com nome estranho que vive vindo aí. Pedem licença, dizem que examinam ela depois vêm com uns papéis pra mudar isso mudar aquilo pra ela… Eu; sabe como é, faço que escuto, faço que entendo, e faço que faço. Meu sonho de consumo é encolher cada uma dessas, a segurança, a saúde, a moradia, a educação, até caberem em uma mala só, vendê-las, pegar meu o dinheiro e desaparecer daqui de avião.

 

– Mas gostei de você… sabe que dando um jeito; com muito, mas muito trabalho, você poderia fazer parte disso tudo?

– Sério?

– Não é brincadeira! Kkkkk.

Liberou o pagamento. Me fiz tarde, pedi licença e me despedi, não sem antes ouvir um conselho na saída;

– Meu caro cidadão, se precisar de qualquer coisa conte comigo. E lembre-se; ser um cidadão é a sua vida, seu destino. Não deixe ninguém mudar isso. Parabéns!

Saí tonto do gabinete.

Um cachorro deixou seu DNA na saída e misturei meu pé nele. Pronto!…, lembrei, agora somos um. Minha vida misturada a dele.

Em casa desinspirado, adormeci e num pesadelo vi um povo esfarrapado, esfomeado cantando uma canção que mais parecia seu hino.

E o que me apavora, nem sei se é o original do texto, ou o remendo da verdade da emenda desse arremedo.

Chegamos no fundo do final do fim.

Elaborado, irrevogável veredito, pelo que sei e entendo; aqui é lei e é legal.

Que essa pátria cuspa em si.

Dizia o hino assim:

 

… são tristonhos o fim dos campos sem as flores

Ao seu toque, silencia

Nossas vidas em seu circo de horrores

Prata roubada, usurpada é um corre, corre

Faliu! O amor eterno era cínico

E o lavrador lamenta ter plantado

Meu verde é roubado do Amazonas

Não há futuro e inglórias no passado

Injusta, diz ao povo que se enforque

Veras todos seus filhos numa tumba

Devora quem te ama até a morte

Tu és tão falsa!

És um covil

És tu tão vil… degenerada

Solo de escravos, seu colo é um ardil

Quadrilha armada….

 

Rapaz… não é que perdi a rima?! Mas estava aqui?!

Acho que levaram minha rima!? Mas como que os caras roubaram dentro da minha ideia?

Perdi, perdi! Já era…

Só podia ser Brasil!

E não é que não me lembro mesmo?!…

 

 

Migri

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Histórias de um coração – Meu coração mudo

Meu coração é mudo!

No momento, no instante de te dizer, de te falar; não encontro o som das palavras.

Descobri quase que por acidente quando você chegou

Ainda quando te vejo, e você me pega no susto; meu coração dispara…

Então as palavras circulam as veias, enchem os vasos, elas invadem os pulmões e tomam conta de mim

E nem assim; sai o som

Meu coração despercebe quase tudo ao redor; abandona e ignora cerebelo e seu equilíbrio

A base da reação fica desconexa, torta e abandona ao léu a respiração

Meu mundo altera as substâncias

A erupção da horta é um cuidado

A greve das palavras mudas…

Elas querem seu direito de expressão, querem ir

Querem seguir seu caminho

Acreditam que nasceram para mudarem meu mundo com suas exclamações

E que mesmo após interrogação e ponto final cabe etc., reticências

Descansarem em suas vírgulas, pausas de respiração, os corações cansados

Os assombrados pelo monólogo dos dias esquecidos, pelo silêncio da felicidade

No barulho ensurdecedor das cidades desse mundo surdo

Sufoca a nobreza da verdade

E eu no silêncio do meu frágil e raro mundo do coração mudo

Só queria poder dizer que apesar de tudo, mesmo sem jamais ser;

Acredite… poderia ter sido.

 

Migri

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Pra me despedir

Estou só de passagem.

Não quero tomar seu tempo

É que o meu está quase esgotado!

Passei rápido só pra dizer que de tudo o que vale é, e sempre foi  você

Nada mais vale pra valer

Nada mais vale ver

Na hora de fechar, não há outra visão vale levar na retina

Pra sala, deixo no canto a tralha amarrada

Nada vale a pena levar.

É urgente!

Por favor fica comigo.

Tô a pouco

Quase ao ponto

Quase pronto

Às vezes fico louco por ir

Outras quero ficar pra acreditar que você pode me perdoar e acreditar que sempre, sempre te amei

O que aconteceu foi que me perdi, e não consegui voltar

O mundo tem tantos caminhos e é tão fácil se perder

Por favor fica comigo

Estou por pouco!

No labirinto da cidade quantas vezes nos desencontramos por todos esses anos

Quanta esquina eu dobrei antes de você ou você antes de mim

Seria tão lindo você me abraçando na rua

Agora é tarde…

Pareço uma pequena brasa contra esse vento frio

Deixe eu morrer entre o último espaço que há entre meu coração e seus braços.

Sentindo a pulsação do seu coração que batuca em sim pra vida

Enquanto o meu; velho, não.

 

 

Migri

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