Ezequiel Migri

Ezequiel Migri atua na área de Marketing e Propaganda, compondo jingles, vinhetas e construindo ambientes para marcas e produtos em lançamentos e já existentes no mercado. Na hora de escrever, visita vários temas, alcançando um pouco de tudo, pois à noite surge uma notícia ruim, mas de manhã a visão do velho sorrindo para os brotos de feijão rompendo a terra, acelera de novo a vida.

Pra que lado

Nem mapa, nem placa, bússola, seta ou Google Maps

Nem o barulho da festa ou da paciência no violão e a voz de Lenine

A lua não diz e as estrelas não me apontam nenhuma direção

Tanto faz, no fim do mundo ou no começo na porta da cidade

New York ou Serra da Saudade

Com todos os caminhos pra escolher ou sem ter nenhum

Parece que nada nem ninguém consegue me dizer

Pra onde foi você?

Sumiu assim, bem ao meu lado

Como não vi e ninguém viu você desaparecendo em mim?

As ruas são largas e extensas demais neste mundo

Tantas portas tantos vãos

Os apitos dos trens, o ronco dos carros, os aviões, os portos seus navios seus barcos

Qual deles

Quem te levou?

Me diz, dá um sinal

Pelo asfalto, pelo ar

Na proa ou popa flutuando no mar

Pra que lado?

Pra onde te levaram?

Pra onde posso me levar?

Quem sabe uma pista, um rastro, a lembrança de um momento

Um lenço no chão

Talvez tenha deixado cair um pensamento

Pra que lado meu passo pra te seguir?

O plano do sumiço apagando o fato da nossa existência, empurra pra sobra na sombra da solidão

A surdez do meu grito não te chama a atenção

O tempo não confessa e a saudade não sabe responder

Em que canto foi que fui te perder

Sem você sou pedra rolando na estrada

Parede esperando casa

Um caminho na água, um risco na areia, um ponto no papel

Projeto falido, nome esquecido, conto de fada

Sol sem céu

Falta do mar na praia

A piada sem final

Criança sem risada

Noites sem madrugadas,

Sou centenas de macieiras sem maçãs

Madrugadas sem manhãs

Não faço sentido

Quem me vê sem você não me explica

Uma lista que ninguém sabe de quê

Meio vivo meio morto, torto e não acabado

Vivo no ar morrendo asfixiado

Perguntando:

Pra que lado?

 

Migri

Jornalista / MTB 0085760/SP

migri.marketing@gmail.com                                         

(11) 95410-3400

Lugares

Onde te guardo agora?

O que faço com você agora que você não me quer? Agora que você deixou; me diz; onde te deixo?

Na porta da sala eu te despeço? Talvez da sacada com  um aceno?

Na cozinha no saguão do prédio ou no hall do apartamento?

Você ficou na pia, na sacada, na escada, na sala, na suíte, no salão

Não levou tudo de si

No canto do quarto, na parede, o lugar na sapateira do sapato, no guarda-roupa o vazio do vão

No banheiro o barulho do chuveiro e o cheiro do perfume do shampoo e da loção

Deixou no rádio do carro sua  música

Você esqueceu aquela brisa, suas risadas, suas flores, suas coisas, cores preferidas espalhadas em minha vida, derramadas em meus dias

Os restaurantes, as praças com seus bancos, ruas e cidades

Momentos sem donos

Voce não levou

Você não lembrou

Eu não esqueci

Ainda dou volta no quarteirão pra entrar com o carro.

Buzino pra o porteiro ou agora pega mal?

Paro de ler e volto a assistir televisão?

Que lado da cama me deito, em que quarto, cadê o chão?

Que restaurante agora frequento?

Mudo de táxi?

Nunca mais desço de escada?

O espaço exato que cabia a minha e a sua mão

Não olho mais as nuvens e suas formas, nem sonho com os destinos dos passageiros do avião?

Dou o gato e tento explicar sua ausência ao cão?

Quando lembrar faço que esqueci?

Mudo de amigos, troco as férias, o gosto, a culinária, os lugares e as estações?

Faço que não aconteceu, nunca houve você, nunca te conheci?

Onde escondo os lugares se o que te levou esqueceu todos aqui?

 

 

Migri

migri.marketing@gmail.com

Espera

Quando já estiver escuro e a luz insistir em não acender

Quando a mão demorar pra chegar e chegando, demorar a apertar…

Se a carta demorar a escrever e o correio atrasar em entregar

O sorriso demorar a sorrir, o olho demorar de abrir, o pesadelo de acabar

O sol de sair, a boca de dizer e o o coração demorar em mandar

Espera…

Se eu não deixar pistas

Pode parecer mesmo que o que sinto não exista

Insista..

Ainda que a vista pareça perder-se em vasculhar na imensidão

Sei do caus da guerra que te fizeram

Eu vivi no vento do inverso da direção

As trilhas, das ilhas que te venderam, e as falsas esperanças que te deram

Conheço as mentiras dessa  inquisição

Conheço seus algozes e os nós da sua prisão

A tosse, essa falta de ar, a noite e a entrevista com a solidão

Nenhum dos quatro quer passar

Eu sei…

Sei a cara dos que parecem que “são”, e mentem dizendo que te esqueci

Me jogaram no chão

Não, não tinha força pra levantar

A chuva enchorrada, bicho, trovoada sol e chuva

Tanto e tudo passou e pisou por sobre mim

Espera…

Ao invés de levantar; criei raiz

Então descobri:

Sou só uma semente a espera pra plantar

Entendi

Mesmo a maior árvore demora a aparecer e até o próprio tempo aguarda momento de chegar

Me espera

Estou brotando lentamente

 

Migri

migri.marketing@gmail.com

(35) 98402-7065

A pausa do retrato

O instante não deixa dúvida do que o presente daquele passado não entendeu

O que o futuro daquele passado lhe negou

Restou nesse presente momento, sonhar para o nosso invisível futuro, o  possível sonho que o passado não lhe sonhou

Um furo no tempo, uma falha no sentimento,

A imagem de fora revela a história por dentro

Olhando de lado pra pausa do retrato parecem felizes

Eramos nós…

O que realmente foi tudo aquilo?

Um ator, uma atriz?

Ou era realmente o que a foto ainda diz, ainda expressa?

O tempo levou tudo menos o abstrato daquele momento

O ato testificado na foto, reinvindica o fato como nosso

Ainda ninguém negou

Você não pode..

E eu agora; não posso!

Nada, nem o silêncio do presente rompe o que se ouve tão alto na pausa do tempo

O instante que vive no click, não quer que o resta dele em mim se vá

A indiscrição do amor, a  força do seu abraço,

Esta ali, é vivo, ninguém pode negar

Uma sobra do passado sobre minha  mesa

A pausa do retrato quer que eu fique, e diga o que naquele dia não disse.

 

 

E-mail: migri.marketing@gmail.com

Sem saída

É esse silêncio, a  falta do som da palavra

O rápido encontro do olhar, que sopra um segundo de emoção no calado instante

Silenciosa a caminho do coração, vai a imagem intravenosa

Nós dois em rota de colisão

Como seria ser feliz com sim?

Como será viver com o não?

O vermelho na taça do vinho; o “V” da palma da mão: sozinhos!

A pergunta que mora na bifurcação do caminho, espera a resposta pra se libertar

Nossa dor mora na indecisão

Caminhos, sonhos,  todos presos nos olhos se declaram num segundo

Todo compromisso na fresta do olhar

“Seria pouco se pudéssemos dizer o quanto”

Seria disto que o poeta falava?

Tudo fica no ar ar… o amor e quem vai respirar

Encontro sem data, sem hora marcada, sem palavras

Tudo é quase dito por um fio

O silêncio quase rompe o momento e diz… mas cala…

Nossa razão pondera e calcula que toda e qualquer palavra sera bruta, e pertuba a beleza do instante

Você não esquece o que eu não se falei

Eu não esqueço o que você não se ouviu

Ainda assim dentro de nós, a urgência reclama vida, e aponta na sala o porta-retrato vazio

Parece que ninguém nem nada no mundo, desata o nó que prende tudo

O tempo passando não se envolve e avisa que não devolve

Ponto, pingo ou vírgula que não foi declarada ou dita

Em nossa defesa, nosso argumento, é que a prova do tal momento é ambígua

O que foi dito sem som está preso no cofre do silêncio

Minha dor, minha alegria; ninguém provou então, ninguém pode provar

Tudo passa, tudo irá passar…

Amarelam as páginas dos jornais onde nossa história foi escrita

Sem ser lida, sem ser ouvida, nem vista

Quase como que se a gente não soubesse

Envelhecem querida; os dias, os seus e os meus olhos assim

E nós sem saída

 

 

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