Editorial

Vá com calma, Rachel!

O mundo não é cor de rosa. O que é ótimo, porque bonito mesmo é o colorido da diversidade. Mas também não precisa ser escrito com gotas de sangue. A polêmica da semana é a minha colega de profissão Rachel Sheherazade, do SBT, que deixou de lado o mundo das mil e uma noites e, com muita coragem, tem colocado a cara na TV e falado tudo o que pensa.

Rachel já falou sobre os motivos que a levaram a não gostar de carnaval, defendeu o parlamentar Feliciano, criticou um beijo gay em uma cerimônia religiosa, disse que os ateus não tem o que fazer. Em maio de 2013, um grupo de funcionários do SBT teria feito um abaixo-assinado dizendo que a âncora não os representava, segundo o jornal Folha de São Paulo.

No olho do furação mais uma vez, Rachel  defendeu um grupo de cidadãos que deteve um suspeito de assalto, o agrediram e deixaram nu, preso a um poste com uma trava de bicicleta. O caso foi no Rio de Janeiro na última semana.

Em seu comentário no “SBT Brasil” de terça-feira, Rachel disse que a atitude do grupo era “até compreensível”. “Num país que sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível”, disse a jornalista. “O Estado é omisso, a polícia desmoralizada, a Justiça é falha. O que resta ao cidadão de bem, que ainda por cima foi desarmado? Se defender, é claro”, acrescentou, para completar: “O contra-ataque aos bandidos é o que chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite”. No final, ainda disse que quem defende o suspeito deveria “adotar um bandido”. “Aos defensores dos direitos humanos, que se apiedaram do marginalzinho preso no poste, lanço uma campanha: faça um favor ao Brasil, adote um bandido”.

Se muitas de suas ponderações são prudentes, em algumas Rachel peca. Sim, porque, ao colar grau no curso de jornalismo que cursou na Universidade Federal da Paraíba Rachel proferiu palavras em tom de juramento em que afirmava “atuar dentro dos princípios universais de justiça e democracia”.

A parte do juramento de jornalista que diz que buscará o aprimoramento das relações humanas e sociais através da crítica e análise da sociedade Sheherazade tem feito escola. Bom seria se todos os profissionais da imprensa tivesse peito pra manter uma postura assim.

Mas nesse ter opinião formada sobre tudo, Rachel se esqueceu que, como formadora de opinião, que é, não pode sair incentivando as pessoas a se vingarem, em detrimento da ordem que, convenhamos, não anda lá essas coisas mesmo.

Todavia, se está ruim como está, imagina a anarquia que seria se todo cidadão de bem resolvesse buscar sua justiça com as próprias mãos. Teríamos o dobro de criminosos! Um crime nunca – nunca – justifica outro.

Incentivar a cobrar os sistemas Legislativo, Executivo e Judiciário é melhor do que aplaudir os justiceiros. Um povo estático não vai a lugar algum, obviamente, mas se tem peito para enfrentar bandido, pelo amor de Deus, vai enfrentar o político em quem você votou e faça-o justificar com trabalho o salário que ganha.

Admiro Rachel, que fique claro. E, como ela mesma disse em um de seus editoriais, se o Feliciano está representando o país é porque foi votado. Foi eleito democraticamente. Então, se serve de alerta, preste atenção em quem você vota porque, como diz sempre o Faustão, urna não é penico. O reflexo do que você fizer lá vai atingir sua vida. Sejam cidadãos, no sentido pleno da palavra!

Xô, preconceito!

Cá estava eu, pensando sobre o que escrever no meu primeiro editorial aqui na Gazeta da Cidade, e, confesso que tive ideias muito boas, porém, os fatos foram mais fortes e o primeiro beijo gay da teledramaturgia Global estava lá, praticamente pedindo que eu falasse sobre ele, e eu não fugi da raia. Mas vou focar apenas no beijo, não na novela em si, mas ao fato, até mesmo porque o assunto abrange várias outras questões.

O dia 31 de janeiro de 2014 ficará marcado como o primeiro beijo gay assistido simultaneamente por milhões de telespectadores. Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) se beijaram em plena novela das nove (21h), horário nobre da TV Globo, no último capítulo da novela “Amor à Vida”, fato inédito na emissora. O assunto, que foi um dos mais comentados no Brasil e teve repercussão internacional, ainda rende muito pano para manga.

A atitude da emissora divide opiniões. Enquanto uns fizeram festa ao ver o beijo entre dois homens, outros ficaram revoltados. Os motivos são muitos e vão desde preconceito, religião, até pura birra.

Nós estamos cansados de saber que, infelizmente, em pleno século XXI ainda existe muito preconceito pairando no ar. Como bem lembrou minha amiga e colega de trabalho Aline Eusébio, no artigo 5º da Constituição Federal consta que, “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade […]”. Já o artigo 3º, inciso IV, diz que, “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

Eu respeito a opinião de todos, mas também tenho a minha. Pergunto-me: o que é um beijo gay (ainda mais um tão reservado e nada escandaloso como foi o de Félix e Niko) em meio a tanta violência, crimes, cenas de sexo, exibição quase que sem limites do corpo feminino (principalmente) e masculino e palavras de baixo calão? Os que ficaram chocados que me desculpem, mas a TV aberta propagou cenas muito mais “assustadoras” do que essa.

Eu me emocionei com a cena fictícia, não exatamente pelo beijo gay, mas porque o gesto de carinho veio depois de uma família formada com muito amor e do rumo que a novela tomou com o personagem Niko praticamente salvando e mudando a vida de Félix.

Vale ressaltar que outras emissoras já tinham transmitido o beijo gay em novelas. Mas a TV Globo, líder de audiência em telenovelas, apesar de frequentemente ter algum casal gay em sua teledramaturgia, nunca havia mostrado o polêmico beijo. Para a Rede Globo, a cena foi uma consequência do enredo da novela, pois, nos últimos capítulos, o casal construiu uma relação com muito carinho.

O relacionamento homoafetivo existe. As pessoas não são obrigadas a gostar de ver um beijo gay, mas para melhor lidar com a situação, também não podem ficar paradas no tempo, porque ele muda, evolui e revoluciona. Já quem festejou a cena, com certeza deve ter visto a reprise no último sábado (1).

Fica a dúvida: será que agora todo autor irá na onda de Walcyr Carrasco e o beijo gay cairá na mesmice até aos olhos dos mais conservados e preservados? Só nos resta esperar os próximos capítulos das inúmeras novelas do Brasil.

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