Carolina Lemes

Jornalista por formação (FAAT-2010), atuou em jornalismo radiofônico até 2013, quando passou a fazer parte da equipe da Gazeta da Cidade.

Que haja paciência!

Trânsito caótico. Com certeza você já ouviu isso em algum lugar, na cidade, quando foi viajar, ou leu em matérias. Seja onde for o problema realmente existe, principalmente, nas grandes metrópoles, quando os trabalhadores demoram horas para ir e voltar do serviço, por exemplo. Dentro desta questão surge outra, que, na verdade, pode ocorrer sozinha, ou seja, sem caos no trânsito e é o motivo deste texto: a impaciência no trânsito, intenso ou não.

Frequentemente, para não dizer diariamente, vejo situações de extrema falta de paciência das pessoas que estão dirigindo. Muitas vezes, o motorista (não importa se homem ou mulher) prefere, de súbito, passar no sinal vermelho do que esperar quanto? Nem um minuto para o sinal abrir, ficar verde e ele poder passar tranquilamente – ou nem tanto.

Se a pressa é inimiga da perfeição, imagine a impaciência? Num estalar de dedos ela pode fazer com que você bata o carro, a moto, e ainda coloque a culpa no pobre motorista que estava a sua frente e simplesmente parou seu veículo porque o sinal havia fechado. E você pode achar hipocrisia, mas talvez, eu disse talvez, ainda haja condutor sossegado em plena hora do rush (será?!) – de manhã cedo ou no fim da tarde.

Qual seria o motivo dessa nossa impaciência? Exatamente, “nossa”, porque eu também já fiquei nervosa por ter que parar para aguardar o semáforo, não duvide. Mas, na maioria das vezes, sinceramente tento compreender e não me estressar quando o carro daquele cara morre no meio de um super morro, quando tenho que esperar um motorista que não foi feliz em algumas tentativas de estacionar seu carro entre outro e uma moto ou nas vezes em que um veículo enguiça e não sai mais do lugar, a pessoa liga o pisca alerta para avisar que está com algum problema ou dificuldade, porém, ninguém entende, ou pior, não está nem aí e lá vem aquele barulhão de buzinas, uma atrás da outra. Até parece que eles nunca passaram por algo parecido e nem sequer sonharam em pagar aquele mico logo após tirar a carteira de habilitação.

Não sei se vocês já repararam, mas a impaciência no trânsito impera mesmo que não haja congestionamento, nem tráfego intenso ou sequer pressa. O motorista pode não ter horário marcado para nada e não estar atrasado para algo, que mesmo assim ele ficará inclinado a xingar aquele cidadão que atravessou seu caminho fazendo com que ele perdesse alguns segundos.

A querida faixa de pedestre é outro fator gerador de impaciência, tanto para o motorista quanto para o próprio pedestre, afinal, quem nunca teve que ficar esperando algum veículo ter a bondade de parar para que a travessia fosse realizada, enquanto o condutor praguejava em pensamento porque teve que pisar no freio quando o carro ao lado teve a ideia de parar e deixar o pedestre passar?

É complicado julgar e nem quero. O que já é sabido e ponto, é que o motorista de hoje está cada vez mais impaciente ao volante. Isso também é perigoso. Sem entrar na questão do condutor que usa o carro para descarregar seus problemas, outros começam uma briga por motivos banais e essa atitude pode levar até mesmo à morte. Será que o ganho de alguns poucos minutos do seu tempo na direção impaciente vale a pena se levarmos em conta que esta atitude prejudica a sua saúde física, mental e social, além de não ser segura não só para você, mas também para os seus passageiros, outros motoristas e pedestres? Então, pensemos bem antes de nos enfurecermos pelas ruas e avenidas desse mundão.

E o racismo persiste…

É incrível (no sentido negativo da palavra) que em pleno século XXI ainda haja discriminação contra negros. Vocês devem estar pensando: lá vem ela de novo falar de preconceito. Sim, mas, desta vez, sobre o racismo, palavrinha feia, não? Seu significado é pior ainda. Segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa, racismo é o “Conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre as etnias. Doutrina ou sistema político fundado sobre o direito de uma raça (considerada pura e superior) de dominar outras. Preconceito extremado contra indivíduos pertencentes a uma raça ou etnia diferente, geralmente considerada inferior. Atitude de hostilidade em relação à determinada categoria de pessoas”.

A época (que nunca deveria ter existido) de julgar pessoas pela cor da pele já está mais do que ultrapassada. Nunca saberemos e nem poderemos definir uma pessoa pela sua cor. Como generalizar? Cada um é cada um, todos nós possuímos particularidades (graças a Deus), só que, infelizmente, já ouvi gente dizer “preto é tudo malandro” e por aí vai. Meus ouvidos doem. A pessoa que discrimina alguém pela cor de sua pele não enxerga que o negro é um ser humano assim como ela e tem sentimentos e dignidade.

Vimos recentemente o caso do jogador Tinga, do Cruzeiro, na derrota do time por 2 a 1 contra o Real Garcilaso do Peru, na cidade de Huancayo, durante o segundo tempo da partida válida pela Copa Libertadores da América (atual Copa Bridgestone Libertadores), sendo vaiado pela torcida adversária, que imitava o som de macacos toda vez que o jogador tocava na bola. O volante chegou a dizer que não esperava essa recepção de um país tão diverso, cheio de mistura, e que sente o preconceito pelo olhar das pessoas no dia a dia. A reação da torcida é vergonhosa, ainda mais quando o Peru tem como seu maior ídolo do futebol o negro Teófilo Cubillas, da seleção de 1970.

Outro caso que repercutiu nos últimos dias a respeito de preconceito contra negros foi a de uma australiana, cliente de um salão de beleza, que se recusou a ser atendida por uma manicure negra, em Brasília. Depois, não contente, ela ainda agrediu verbalmente outra funcionária, uma cliente do local e um policial militar, todos negros. A australiana foi presa por racismo, pois, segundo a Polícia Civil, ela cometeu segregação racial quando disse (acreditem) que a profissional não poderia executar o serviço porque era de uma “raça ruim”. Para quem não sabe, racismo é crime previsto na Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. O artigo 5º, inciso XLII, da Constituição Federal, estabelece que “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível”.

Como já dizia Gabriel O Pensador, na música Lavagem Cerebral, “Racismo, preconceito e discriminação em geral, é uma burrice coletiva sem explicação, afinal, que justificativa você me dá para um povo que precisa de união, mas demonstra claramente, infelizmente, preconceitos mil, de naturezas diferentes”. A música diz ainda “Não se importe com a origem ou a cor do seu semelhante, o quê que importa se ele é preto e você é branco? Aliás, branco no Brasil é difícil porque no Brasil somos todos mestiços, se você discorda então olhe pra trás, olhe a nossa história, os nossos ancestrais”. Falou e disse!

Xô, preconceito!

Cá estava eu, pensando sobre o que escrever no meu primeiro editorial aqui na Gazeta da Cidade, e, confesso que tive ideias muito boas, porém, os fatos foram mais fortes e o primeiro beijo gay da teledramaturgia Global estava lá, praticamente pedindo que eu falasse sobre ele, e eu não fugi da raia. Mas vou focar apenas no beijo, não na novela em si, mas ao fato, até mesmo porque o assunto abrange várias outras questões.

O dia 31 de janeiro de 2014 ficará marcado como o primeiro beijo gay assistido simultaneamente por milhões de telespectadores. Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) se beijaram em plena novela das nove (21h), horário nobre da TV Globo, no último capítulo da novela “Amor à Vida”, fato inédito na emissora. O assunto, que foi um dos mais comentados no Brasil e teve repercussão internacional, ainda rende muito pano para manga.

A atitude da emissora divide opiniões. Enquanto uns fizeram festa ao ver o beijo entre dois homens, outros ficaram revoltados. Os motivos são muitos e vão desde preconceito, religião, até pura birra.

Nós estamos cansados de saber que, infelizmente, em pleno século XXI ainda existe muito preconceito pairando no ar. Como bem lembrou minha amiga e colega de trabalho Aline Eusébio, no artigo 5º da Constituição Federal consta que, “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade […]”. Já o artigo 3º, inciso IV, diz que, “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

Eu respeito a opinião de todos, mas também tenho a minha. Pergunto-me: o que é um beijo gay (ainda mais um tão reservado e nada escandaloso como foi o de Félix e Niko) em meio a tanta violência, crimes, cenas de sexo, exibição quase que sem limites do corpo feminino (principalmente) e masculino e palavras de baixo calão? Os que ficaram chocados que me desculpem, mas a TV aberta propagou cenas muito mais “assustadoras” do que essa.

Eu me emocionei com a cena fictícia, não exatamente pelo beijo gay, mas porque o gesto de carinho veio depois de uma família formada com muito amor e do rumo que a novela tomou com o personagem Niko praticamente salvando e mudando a vida de Félix.

Vale ressaltar que outras emissoras já tinham transmitido o beijo gay em novelas. Mas a TV Globo, líder de audiência em telenovelas, apesar de frequentemente ter algum casal gay em sua teledramaturgia, nunca havia mostrado o polêmico beijo. Para a Rede Globo, a cena foi uma consequência do enredo da novela, pois, nos últimos capítulos, o casal construiu uma relação com muito carinho.

O relacionamento homoafetivo existe. As pessoas não são obrigadas a gostar de ver um beijo gay, mas para melhor lidar com a situação, também não podem ficar paradas no tempo, porque ele muda, evolui e revoluciona. Já quem festejou a cena, com certeza deve ter visto a reprise no último sábado (1).

Fica a dúvida: será que agora todo autor irá na onda de Walcyr Carrasco e o beijo gay cairá na mesmice até aos olhos dos mais conservados e preservados? Só nos resta esperar os próximos capítulos das inúmeras novelas do Brasil.

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